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JÁ É PRIMAVERA

02.09.2017

Tudo novo de novo.

 

Se o tempo é esse conceito difuso, não haveria diferenças.

 

Mas houve.

 

O dia amanheceu setembro.

 

Trouxe cores diferentes. E cheiro no ar. E céu mais azul. E sol festivo. E o vento varreu e limpou.

 

Tudo parecia refeito. Tinindo. Cheiro de limpeza. Sabão e desinfetante. Trabalho de quem vira o mês. Quem fecha a cortina. Dá baixa.

 

Para recomeçar.

 

O calendário, alguém virou a página.

 

Ontem mesmo era agosto ainda.

 

Hoje o dia amanheceu setembro.

 

O verde se multiplicou. Se somou. Se dividiu. Ganhou aspectos e tonalidades que um dia atrás não se via.

 

O dia amanheceu setembro.

 

O primeiro respiro depois que os olhos se abriram cedo da manhã foi assim de novidade.

 

Expectativa. Folha em branco. Podia ser tudo. Ou nada.

 

E só há um dia para encher os pulmões de alegre expectativa.

 

É o dia um. Primeiro. De tantos. Que se sucedem cansando.

 

No primeiro todo o fôlego.

 

Nenhuma gota de suor.

 

Percurso recém-iniciado.

 

Bandeira de largada balançando animada.

 

Eu vejo vir vindo no vento o cheiro de nova estação.

 

Vai ser primavera já já.

 

Mas como o tempo é esse conceito difuso.

 

Já é primavera.

 

Na estação e no mês e todo dia primeiro e toda primeira vez é primavera.

 

Tempo de florada. De florir.

 

Reflorescer.

 

Explodir em potência o que se guardou. Resguardou. Caiu. Murchou. Gestou.

 

Da janela puder ver. 

 

A barriguda que há uma semana se exibia pelada despindo minha cortina, hoje estava vestida de gala.

 

Todinha arbustos. Coisa mais linda.

 

Roupa nova. Recusou-se a guardá-la para usar depois.

 

A ocasião especial chegara.

 

Com os primeiros raios de sol – ainda tímidos e mornos – estava pronta para o baile.

 

E como dançava.

 

Mãos dadas. Corpos colados. Coisa de amor e intimidade. Coisa de entrega.

 

Agosto deixara seus ventos.

 

Porque o tempo é esse conceito difuso.

 

E não dava para arrastar assim tanta brisa forte.

 

Ela ficara.

 

Como criança agarrada à saia da mãe.

 

Como quem não percebe o fim dos ciclos.

 

Como quem não quer ir embora.

 

Só mais dez minutinhos.

 

De que valeria partir e deixar a dama sozinha no salão.

 

Negar-lhe uma última valsa.

 

Tamanha deselegância só para manter a palavra. Não dita.

 

Debruçada na janela.

 

Já é primavera.

 

Logo virão as chuvas.

 

Sinto o movimento que as precede.

 

Não o de agora.

 

Mas os de anos anteriores.

 

Depois vem o cheiro de terra molhada sem que tenha caído um pingo.

 

Ele não cai mesmo.

 

A chuva daqui não gosta de amenidades.

 

Vem inteira. De uma vez.

 

Sem gradações. Nem espera.

 

Sem aviso prévio.

 

Não dá tempo de correr. Nem de se proteger.

 

Sinto o cheiro de terra molhada.

 

De poeira que cansou de se espalhar.

 

Do óleo querendo se misturar.

 

Dos pneus e freios desacostumados.

 

Vejo a dança da chuva.

 

Da primeira.

 

Recebida com gratidão e alivio.

 

Ouvem-se gritos. Palmas. Música.

 

Abrem-se garrafas.

 

A noite fica alta.

 

Após a primeira.

 

Afinal.

 

Já é primavera.

 

 

 

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