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TEMPO DE JACA

31.08.2017

No caminho, contamos as jaqueiras.

 

Não é fácil. Estou na direção.

 

Ela facilita a tarefa.

 

Localiza pontos de referência.

 

Antes de tal posto de gasolina, tem sete.

 

No percurso todo, são doze.

 

Naquele dia, lamentou, só encontrou nove. Devia estar desatenta.

 

Não dá tempo.

 

Ela facilita a tarefa.

 

Para enxergá-las com facilidade, procurar os troncos com folhas verdes.

 

E jacas.

 

Os demais, de barrigudas, ipês, mangas, são pelados.

 

Aí, foi festa.

 

Sabendo localizar os descampados em que se concentravam, manter o olhar amplo. No tempo possível entre acelerar, olhar para frente, para os lados, manter a linha reta, voltar para 60km ante a presença dos pardais. Enxergar, rente ao chão, a tinta verde. Pigmento natural.

 

Divagar sobre a força do caule que segura fruta tão robusta como halterofilista em dia de competição.

 

Perceber que algumas se apoiam na terra como senhoras cansadas que acham a mais leve sombra em dia ensolarado. E seco.

 

Estão disponíveis para a colheita a céu aberto. Via pública. Não faz sentido procurá-las no mercado.

 

A cidade faz a oferta. Benevolente que só.

 

Ela desconfia que podem não ser tão saudáveis. Ali, dispostas aleatoriamente em meio a concreto, fumaça, barulho, carros velozes e olhares apressados que nem sempre as enxergam.

 

Estariam no lugar errado? Atônitas como cego em tiroteio. Cachorro que cai do caminhão de mudança. Balançando a copa em pedido de socorro.

 

Pacientes como sábios gurus.

 

Cultivando o silêncio.

 

A espera.

 

Hora certa, seriam procuradas.

 

Veriam motoristas corajosos desafiando as leis de trânsito. Estacionaram, só por um minuto, pisca-alerta ligado. Olhares de soslaio como a buscar testemunhas do frugal delito.

 

Uma. No máximo, duas. Por vez.

 

Peso daqueles. E tamanho. Não caberiam fácil embaixo do sovaco. Próxima vez, cairia bem a sacola ecológica do supermercado.

 

Havia ainda a aspereza. Os espinhos disfarçados.

 

Só com sorte a aventura não renderia arranhões. No mínimo, manchas avermelhadas por sobre o braço que servisse de suporte.

 

O halterofilista mudava de endereço.

 

Em casa, a dúvida.

 

Ela poderia ficar ali por dias. Inofensiva. Ocupando um espaço que estava vazio mesmo.

 

Depois, começaria a cheirar e a denunciar sua presença não tão discreta.

 

Era agora. Ou nunca.

 

Era necessário aparato.

 

Bicho arisco aquele.

 

Era hora de força e habilidade.

 

Faca grande. Afiada.

 

Papel jornal para estancar o sangue branco. Leitoso. Visguento. Que reclamava a ferida.

 

Achar o lugar certo para enfiar a lâmina. Obtivesse êxito, aquela costura seria desfeita e objeto de desejo se entregaria finalmente.

 

Aberto como mulher sequiosa.

 

Os bagos.

 

A cor.

 

A textura.

 

O cheiro.

 

Fosse mole, dificilmente desceria goela abaixo sem se enroscar em obstáculo.

 

Fosse dura, estalaria no movimento dos dentes.

 

E viraria dourado. Prazenteiro.

 

Fosse em calda.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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