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NASCEU, MORREU

26.08.2017

Minha avó Severina.

 

Escuto sua voz.

 

Revejo seus pés nos da minha filha.

 

São parecidos.

 

Queria ter dela muitas outras lembranças.

 

São poucas.

 

Tantas.

 

Porque revejo sua casa em sonhos recorrentes.

 

Seu pequeno jardim com flores que me parecem extintas.

 

Coisas simples. De mato. De curas.

 

E o pinhão-roxo. Folhas que valiam muito.

 

Catássemos três delas e seríamos rezados contra mau olhado.

 

Vó balbuciava a oração que ninguém herdou.

 

Que buscávamos decifrar. Ouvidos atentos. Fé. Reverência.

 

Só captávamos mesmo o movimento rápido dos lábios.

 

Ventinho bom que trazia o seu hálito. Cheiro de gente simples. Da roça. Da sabedoria ancestral. Do poder da natureza.

 

Vez em quando um pingo de saliva escapava e parava sobre nossa pele. Água benta.

 

Ela bocejava. Onde parasse o bocejo indicava se as más energias eram coisa de homem ou de mulher.

 

Em dias piores, ouvíamos a sentença mais cruel: Olhado de homem e de mulher.

 

De olhos fechados, ela conduzia a limpeza.

 

Enquanto as folhas murchavam captando o que saía de nós.

 

Alquebradas eram jogadas longe.

 

Vó limpava as lágrimas forjadas pelo movimento das mandíbulas sonolentas.

 

Ela nos limpava e ficava com o peso remanescente.

 

Quem a rezaria?

 

Depois. Ou antes. O convite para o café.

 

Foi justo por sua benevolência que não pôde mais morar sozinha depois da viuvez.

 

Chamava quem passava na rua para um lanche.

 

Vem comer, nêga.

 

Sua generosidade agora era risco de vida.

 

Entravam no seu espaço não apenas os velhos conhecidos.

 

Mas gente com más intenções.

 

As coisas começaram a sumir.

 

Como ela mesma.

 

Franzina embaixo do vestido simples. Corte reto. Chinelas nos pés.

 

Cabelos finos. Ralos. Brancos. Presos. 

 

Até hoje lembro o cheiro do café da casa de vó.

 

Nunca se repetiu em outra chaleira.

 

Como a carne de sol. Fininha. Bem torrada.

 

Vez em quando algum preparo chega perto. Mas nunca se iguala.

 

Inhame nunca vi tão bom de sal. Tão branquinho e bem cozido.

 

Só na casa de vó.

 

Seu bolo de massa de mandioca assado na folha de bananeira, manzape, cheguei a rever em feiras de agricultura familiar frequentadas em viagens ao semiárido brasileiro.

 

Apenas lembrava em aparência a receita de vó.

 

Escuto sua voz.

 

Chamando-me “rapinha de panela”.

 

Não sei se me deu colo. Referência, sim. De sobra.

 

Foi morar conosco quando precisou ser cuidada.

 

Sentava-se por longos períodos. Em silêncio. Absorta. Presa a um mundo próprio que não nos era dado desvendar.

 

De repente, erguida, ia até a porta, olhava pelo vidro e vaticinava.

 

Olhar longe. Gesto longo. Dedos esbeltos. “Tá soturno...”

 

Esticava o “u” como em cantiga de “incelença” de Caymmi. Uivo de vento.

 

Quase nos assustaria não estivesse o tempo quente, movimentado, lá fora.

 

Não se enganava quando respondia ao narrador dos jornais.

 

Ao ouvir notícias não muito alvissareiras envolvendo vítimas fatais, não se furtava a sentenciar:

 

Nasceu, morreu.

 

Assim, nos ensinou muito.

 

Sobre a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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