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É DIA DE FEIRA. NÃO IMPORTA A FEIRA

22.08.2017

Era durão. Mas generoso.

 

Por isso tinha crédito no mercado.

 

Por isso ela aceitou atender mais um pedido dele.

 

Mesmo que fosse sábado. Mesmo que estivesse cansada. Mesmo que não quisesse mais ter que se comprometer com algo que não fosse fruto do seu livre arbítrio.

 

E o que o seu querer apontava era a placa de um botequim. Onde a cerveja descesse redonda. Em espiral. Como uma onda no mar.

 

Aliás, o próprio mar cairia bem.

 

Da mesma forma que uma rede bem armada. Nem muito baixa. Nem muito alta. Com espaço para ser levada para frente e para trás. Sem esbarrar em nada. Nem em ninguém.

 

Podia mesmo não fazer nada. Estaria satisfeita. Mas não tinha essa opção.

 

Há anos não tinha essa opção.

 

O que a vida queria dela era somente coragem?

 

Não. Não podia crer. Queria era puni-la. Aprender tantas lições que já perdera as contas.

 

Onde estaria o alento? Quanto tempo mais precisaria para encontrá-lo dando sopa no caminho?

 

Não. Para ela só havia pedras no caminho.

 

Estava assim. Reclamando. Desabrida. Rumo ao cumprimento da missão.

 

Ele estava convalescente, vá lá.

 

Tanto pior. Acabara mesmo de receber alta do hospital. Passara por uma pequena cirurgia. Nada grave. Apenas necessário.

 

Já se achando completamente curado, quis fingir que nada tinha acontecido.

 

Queria era comer como sempre fez. Nada insípido. Estava fora do hospital.

 

Fava bem temperada... Umas cheirosas folhas verdes. Carne de sol. Bode. Bucho.

 

Foi para enchê-lo de nordestinidades que aceitou colocar seus pés de unhas recém-feitas na feira central da cidade. No dia oficial de sua acontecência.

 

Era furdunço na certa. Povaréu. Empurrão. Carros de mão atropelando pedestres. Estivadores de terra firme gritando “olha o sangue”. Valia o abrir espaço entre a multidão espremida. Que nunca aprendia. Que sempre esperava o pior. Mas era apenas o fortão carregando o cesto alheio. Ou um recarregamento de estoque qualquer.

 

Mal chegou junto da vendedora de feijão, a chuva jorrou.

 

Parecia vingança dos céus. Mas o que ela teria feito para merecer?

 

Lembrara. Fez escovinha. Era extravagância. Seu orçamento não comportava certos caprichos.

 

Solidária, a jovem empresária do ramo do feijão debulhado na hora teve uma ideia.

Enfiou a cabeça da cliente em um saco plástico.

 

Ficasse embaixo da grande sombrinha aberta sobre o produto, preservaria os fios alisados.

 

Assim foi feito.

 

Não contava que enquanto esperava a chuva cair, seria ela mesma promovida à vendedora de feira.

 

A original, já bem colocada no negócio, precisava visitar outro ponto. Ela poderia tomar conta daquele por um instante, sim?

 

Não teve como negar. A meta agora era que não aparecesse nenhum cliente.

 

Mas nem nisso foi atendida.

 

Sorte é que também tinha tino para a coisa. Antes de assumir o negócio, tratou de aprender os preços e forjou, ela mesma, uma promoção para um quilo e meio. Não queria fazer feio.

 

Feira que se preze tem pechincha.

 

Não restou mais.

 

Sorriu da situação.

 

E viu que tinha mais coragem do que a vida podia supor.

 

Que viesse quente.

 

Ela estava fervendo.

 

Apesar (e por causa) da chuva.

 

 

A Vendedora de Feijão Verde, xilogravura de Josafá de Orós

 

 

 

 

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