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COPAS ACESAS. TAPETES ABRASADORES

21.08.2017

O Eixão Norte vira do Lazer. Aos domingos.

 

São alguns quilômetros de assunto. Repetindo-se a cada final de semana.

 

Mais uma vez de bicicleta, procurei não ouvir as conversas das pessoas. Nem reparar nos recortes de cenas inevitáveis.

 

Quis aquietar a mente. Não pensar em nada. Não ruminar problemas. Não escrever crônicas mentais.

 

Foi difícil. Mas quando o pensamento ganhava asas eu pegava uma das tesourinhas disponíveis no percurso e dava uma aparada nas bichinhas.

 

O propósito do passeio estava claro. Queria sentir o vento no rosto. Queria me concentrar na respiração. Na força necessária para fazer os pedais vencerem as ladeiras e descansarem nas descidas.

 

O que me tomou dessa vez (e de quem nem procurei me libertar) foram os ipês.

 

Os amarelos.

 

Luminosos. Incandescentes. Compondo um cenário de parceria com o auge da seca. Tornando-a menos árida. Mais poética.

 

Ainda há uns dias só havia árvores peladas por aí.

 

De repente, todas arranjadas em fina sintonia e regidas em invisível sinfonia, se abrem para dar a conhecer suas flores.

 

Apresentá-las à sociedade como jovens debutantes.

 

Compartilhar seus encantos.

 

Deixar-nos tontos com tamanha perfeição.

 

As flores são fugazes. As dos ipês não fogem à regra.

 

Vão derramando suas pétalas ao sabor e direção dos ventos.

 

Logo, além de copas acesas, podemos desfrutar de tapetes igualmente abrasadores.

 

Uma disputa quer logo se fazer na nossa memória.

 

Quem seriam os mais vistosos?

 

Os roxos? Os amarelos?

 

Inútil isso de fazer ranking. Escolhas. Gradações. Peso na balança.

 

Bom é passar perto. Deixar cair o queixo. Expressar elogios em voz alta.

 

Fixar a atenção para fotografar com a retina.

 

E prender as imagens em pixels. Por que não?

 

Por entre a alameda larga e amarelada as coisas aconteciam.

 

Entre elas um encontro de brechós. Muita gente armou tenda, estendeu canga, pendurou araras, montou estantes.

 

Coisas. Muitas coisas.

 

Fui e voltei no meio delas um sem-número de vezes.

 

Vi peças rotas. Outras pomposas.

 

Sapatos. Bijuterias. Brinquedos. Livros. Filmes. Cds. Maquiagem. Casacos.

 

Uma grande variedade de objetos afunilados por uma mesma semelhança.

 

Buscavam escape. Queriam desaguar noutro mar. Não faziam sentido. Não serviam mais. Eram fruto de desapego.

 

Pensei em suas histórias.

 

E nas histórias das pessoas que deram sentido – ou não – aos objetos.

 

Muitas vezes chamei de mau gosto o que vi.

 

Mas sabia ser precipitado e inútil tal julgamento.

 

Era domingo. Havia sol forte. E amarelo intenso.

 

Tudo eram ipês. E luz.

 

Entre idas e vindas reparei em uma estampa que se repetia em quase todos os balcões de negócios. A de oncinha. 

 

Pensava justo nisso quando ouvi duas mulheres comentando que aquela oportunidade era imperdível. Vamos fechar negócio porque é um clássico. Não sai de moda. Está em todas as coleções. De todas as estações. A onça. 

 

Voltei-me aos ipês.

 

Aos miúdos. Frágeis. 

 

Um galho. Uma flor. E já estavam consagrados.

 

Tímidos. 

 

Como jovens debutantes. 

 

 

Foto: Gilberto Soares

 

 

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