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METÁFORA

15.08.2017

Não percebi os sinais.

 

Eles estavam lá.

 

E se os percebi? E se preferi fingir que não?

 

Acontece.

 

De a gente tapar o sol com a peneira.

 

É coisa de força medida. O sol vence. A verdade aparece.

 

Foi no domingo.

 

Como lente que se regula, a verdade deixou de ser turva. Ganhou foco. Foi enxergada. Enfim. Até que enfim.

 

Antes tarde do que nunca.

 

Apesar da luz acesa. Apesar do barulho usual. Apesar de alguma temperatura (quase nenhuma).

 

Não estava funcionando.

 

Fui obrigada a admitir.

 

A me perguntar a razão da demora.

 

Estava óbvio.

 

A ficha caiu.

 

E que demora.

 

Agora era lidar com o problema.

 

Matutar em como administrar o tempo – e outras variáveis – a ponto de conseguir receber um técnico.

 

Foi nos 45 dos 45.

 

Ele reclamando o fim da sua jornada. Passavam das 19h.

 

Foi nos 45 dos 45.

 

Mas 24h e o motor teria ido junto.

 

Por hora era a parte elétrica a falecida.

 

Acho que foi esse o diagnóstico.

 

Não prestei muita atenção porque me ocupei em pensar que estava atrasada para buscar minha filha.

 

O que veio foi ainda pior.

 

Lupa. Binóculos. Zoom.

 

Tudo estava apodrecido. Mofado. Mal cheiroso.

 

Ainda há pouco eu nem desconfiara do defeito.

 

Agora tinha um grito de coisas em decomposição.

 

Esvaziar potes e embalagens.

 

Lamentar por algumas perdas.

 

Lidar com visgos e pingos atrevidos.

 

Encher vários sacos com comida estragada.

 

Achar no congelador coisas que eu nem sabia que existiam.

 

Ou vai que soube algum dia.

 

Quando eu mesma as guardei.

 

Guardar.

 

Para quê mesmo?

 

Deixar esquecido.

 

Sem cuidados.

 

Escondido.

 

Lembrei do poema.

 

“Em cofre não se guarda nada. Em cofre, perde-se a coisa à vista”.

 

Agora havia nada.

 

Possibilidade de recomeço.

 

Com parcimônia.

 

Para evitar desperdício.

 

Para acolher o essencial.

 

Para fazer melhores escolhas.

 

Para saber que o que se esconde uma hora aparece.

 

Nem que seja para expor nossa falta de cuidado.

 

Quando teria sido a última vez?

 

De uma boa limpeza.

 

Sem medo de enfiar a cara.

 

As mãos.

 

Dar de cara com invólucros não datados.

 

Pensei na vida.

 

No que escondemos em potes e embalagens – congeladas no dentro do corpo.

 

No que se procura conservar apesar da inutilidade explícita.

 

O último naco que acreditamos imprescindível.

 

A dificuldade em admitir que algo acabou. Não tem mais o que dar.

 

A limpeza adiada.

 

Os sinais anuviados.

 

Pensei na vida.

 

As urgências furam bloqueios.

 

Aparecem como movimento involuntário.

 

Pensei na geladeira.

 

A metáfora possível.

 

O significado preciso.

 

O móvel termicamente isolado.

 

Prisão ladrilhada, cimentada.

 

Pensei no tempo necessário para que voltasse a funcionar.

 

Pensei no vazio.

 

E na oportunidade que conserva.

 

 

 

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