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APENAS 90 PRIMAVERAS

13.08.2017

Não adianta querer blindar a alma.

 

Tentei essa estratégia.

 

Aqui estou. Com aquela tristeza que invade as quatro paredes do quarto-corpo por mais que a gente tenha se cercado de atitudes de segurança. Fechado a porta à chave. Baixado as janelas. Lacrado as frestas. Passado uma corrente gigante pelas quatro paredes. Unido as partes do cadeado.

 

Algo escapa. Ultrapassa. Invade. Toma.

 

É saudade.

 

É lembrança.

 

É retrospectiva.

 

Vontade de corrigir erros. Voltar atrás. Fazer diferente.

 

Vontade de coisas simples. Como dar um telefonema. Ou estar perto. No almoço dominical.

 

Ouvir as brincadeiras. As piadas. As bênçãos. Os desejos das melhores coisas.

 

Vê-lo descer as escadas. Elegante. Cheiroso. Passos lentos. Avisando que ainda não estava pronto. E rindo aquela risada entrecortada. Lembrando a de Raniere. E a de Ricardo.

 

Orgulho em reunir a família. Em ter vivido para ela. Bem de perto. Junto. Sem lapsos. Sem ausências. Sem dúvidas. Sem fugas. Só entrega.

 

E presença.

 

Pensar na grandeza que foi ter nosso pai, Manoel Barbosa, por tantos anos na vida.

 

Por ele ter tido uma vida longa – como era desejo nosso.

 

Pouco mais de nove décadas.

 

Foi muito.

 

Apenas 90 primaveras.

 

Foi pouco.

 

Podia ter sido mais. Ele avisou, quando entrou no hospital. Queria viver. Fizessem o que fosse necessário.

 

Estava íntegro. Altivo. Memória viva. Tinha muito ainda para nos dizer. Muito jornal para ler. Muita política para entender. Muito café com leite para tomar. Muita farinha para pôr no feijão. Muitas anedotas para nos fazer sorrir. Muitas histórias para relembrar. Muita mão para nos entender. Muita serenidade para transmitir.

Muito silêncio para nos passar sermão. Muito recado para mandar por mamãe.

 

Mas se foi. Porque todos vamos. Deve ter sido por isso.

 

Ficamos naquele hospital.

 

Todos nós. Invasão de Barbosa.

 

Esperando. Oscilando entre as piores expectativas. E as falsas melhoras.

 

Vendo-o tentar. Respirar. Falar. Agradecer. Dar a bênção mais uma vez.

 

Vendo se esvair o sopro de vida.

 

E a vitalidade da carne.

 

Até que ouvimos. Presenciamos. O último suspiro. As últimas batidas do coração.

 

A morte assistida. Por nós.

 

A sua morte assistida por nós.

 

Começava mais uma madrugada cortada pela dor.

 

Pela perda.

 

Pelo início de uma nova vida para mamãe e seus filhos.

 

A vida sem Manoel Barbosa.

 

O marido. O pai. O filho. O avô. o irmão. O compadre. O amigo. O político. O enfermeiro do povo.

 

O cidadão paraibano.

 

O homem das letras.

 

Da cultura.

 

Que dançava comigo sobre seus pés.

 

Aos sábados.

 

Ouvindo João do Vale. Ou um bolero. Altemar Dutra.

 

Repetindo as quadrinhas de Dona Ana.

 

Quando eu o vi ser velado, pensei na sua fragilidade.

 

Nós não a enxergávamos.

 

Porque continuava sendo o patriarca.

 

A quem, com mais ou menos obediência, ouvíamos.

 

O pajé.

 

O ancião.

 

O sábio.

 

A força.

 

Nossa.

 

Que corre no sangue.

 

No coração.

 

Na memória.

 

No sentimento.

 

Amor.

 

 

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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