Please reload

PROCURE POR TAGS: 

05.08.2020

04.08.2020

11.07.2020

07.07.2020

Please reload

POSTS RECENTES: 

SIGA

  • Facebook Clean Grey
  • Twitter Clean Grey
  • Instagram Clean Grey

VOAVA. ENGAIOLADA

30.07.2017

Queria ter o olhar fisgado.

 

História pronta.

 

Para ser contada.

 

Caminhei.

 

Sentei no bar.

 

Olhei para o céu.

 

Era dia.

 

Havia lua mesmo assim.

 

Se acontecesse, estaria atenta.

 

A postos.

 

Gostei de tudo.

 

Não dava para contar.

 

Só para ser vivido.

 

E me tomar de tempo bom.

 

Meu.

 

Vi a loja.

 

A árvore de crochê.

 

As pessoas.

 

Os penteados.

 

O chapéu.

 

Os sorrisos.

 

Os olhos grudados no celular.

 

A padaria fechada.

 

A cerveja gelada.

 

Os grupos.

 

Os pares.

 

Os únicos.

 

Vi a criança na janela.

 

Engaiolada.

 

Como estamos todos.

 

Como estão os pequenos.

 

Como ninguém deveria estar.

 

Como bicho atento aos sinais, a menina ouviu a voz dos pares.

 

Estavam embaixo.

 

Brincavam.

 

Falavam.

 

Gritavam.

 

Sorriam.

 

Faziam pontes e vales.

 

Secas e charcos.

 

Desafios para os seus caminhões.

 

De plástico.

 

Atiçavam.

 

Açoitavam.

 

A menina.

 

Foi sem querer.

 

Nem sabiam dela.

 

Anônima.

 

Bisbilhoteira.

 

Dedos grudados na tela.

 

Pescoço esticado.

 

Esgueirava-se na janela.

 

Não fosse a proteção, teria caído.

 

Pulado.

 

Voado.

 

Como de fato voou.

 

Esteve com aqueles pirralhos.

 

Encrenqueiros.

 

Donos dos mistérios do mundo.

 

Coisas de menino.

 

Livres já.

 

Por serem eles.

 

Cabra amarrada.

 

Bodes soltos.

 

Ela voando.

 

Olhar triste.

 

Como bicho que caiu na armadilha.

 

Puxava a rede.

 

Queria não apenas se safar.

 

Mas estar junto.

 

Só lhe cabiam os sons.

 

Deviam estar felizes.

 

Eles.

 

Deviam estar noutro país. Super-heróis. Mocinhos. Bandidos. 

 

Um aceno nem sempre resolve.

 

Às vezes esbanja.

 

Segurei o gesto.

 

Liberdade.

 

A menina.

 

Presa.

 

De um tempo.

 

Perdendo tempo.

 

Ia passar.

 

Logo cresceria.

 

Logo os meninos seguiriam para o banho.

 

A cuidadora largaria o celular.

 

Ia sorrir. Conversar com eles.

 

Embora não fizesse nada disso.

 

A menina só tinha uma palavra:

 

- Descer.

 

Inaudível.

 

Não se atreveria a pô-la para fora.

 

Olhar bastava.

 

Mentira.

 

Olhar era o possível.

 

No mais, podia voar.

 

E voava.

 

Engaiolada.

 

Como estamos todos.

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram Black Round