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VAI TRABALHAR

01.08.2017

- Filha, não vou deitar com você. Para não adormecer. Ainda vou escrever para o blog.

 

- Você vai escrever sobre o quê?

 

- Não sei. Ainda vou pensar.

 

- Posso dar uma sugestão?

 

- Pode.

 

- Que tal você escrever sobre a segunda-feira?

 

- O que sobre a segunda-feira?

 

- Que na segunda-feira a gente acorda cedo. Que na segunda-feira a gente vai para a escola. Que na segunda-feira a gente vai trabalhar.

 

- Que acabou o descanso? Pergunto.

 

- É.

 

- Tá. Vou tentar.

 

Então, aqui numa segunda-feira cheia de frio falarei sobre ela mesma. Já com atraso. E já quase terça-feira.

 

E pensando como interpretar a dica.

 

A gente acorda cedo. Estuda. Trabalha.

 

Volta a fazer isso nos próximos quatro dias.

 

Mas a segunda-feira para ela pareceu o grande algoz.

 

Será que está contaminada pelo temor que os adultos sentem?

 

Não lembro de pregar contra a segunda-feira.

 

Mas exalto o sábado e o domingo.

 

Que peso teria para ela a segunda-feira?

 

Talvez coisa leve.

 

Adora ir à escola.

 

O ideal é que o despertador toque às seis.

 

Mas ando sem coragem de obedecer ao relógio.

 

Antecipo-me a ele.

 

Postergo o momento de acordá-la.

 

Ela reclama.

 

Precisa de um tempo maior.

 

Eu sei.

 

Mas argumento.

 

Está frio. Não estamos atrasadas. Se cumprirmos as missões chegaremos a tempo. Dormiu mais tarde. Precisava descansar.

 

É um círculo vicioso.

 

Porque com o tempo a menos para a preparação, o atraso e o estresse decorrente dele se tornam inevitáveis.

 

Pergunto-me a razão de não ter aprendido.

 

Aumentar o tempo do sono não funciona.

 

Não se repetirá.

 

Teremos paz nas primeiras horas da próxima manhã.

 

Promessa nunca cumprida.

 

Quando a vejo dormindo as forças todas vão embora.

 

Quando chamo uma vez: Acorda Maria Bonita.

 

E a voz não surte efeito.

 

Quando chamo a segunda.

 

Sigo para a próxima tarefa.

 

Minha.

 

E a harmonia – pelo menos interna – está perdida.

 

Isso costuma acontecer às segundas. Mas também terças, quartas, quintas, sextas-feiras.

 

Só os dias sem feira ficam livres.

 

Aí, sim, seria bom.

 

Mas ela acorda bem cedo – mais do que nos dias anteriores.

 

Sem despertador-relógio. Sem despertador-mãe.

 

E confesso sentir vontade de ficar na cama. Até mesmo de dormir. Mais. Até tarde.

 

Mas escuto passos leves. Porta sendo aberta. Voz baixa perguntando: te acordei?

 

Sim. Aconteceu. Acordou.

 

Dorme mais.

 

- Não consigo.

 

Eu também não.

 

Então, de pé.

 

As duas. Ver o céu. Sentir o clima. Saber o que tem para o café da manhã.

 

E depois que siga o dia.

 

Nome comum.

 

Palavra primitiva.

 

Versus palavra composta.

 

É tanta opção.

 

Ou nenhuma.

 

Tanta presença.

 

Ou solidão.

 

Afazeres.

 

Ou procrastinação.

 

Logo passam as horas.

 

E chega o dia em que ela poderia novamente me sugerir escrever sobre a segunda-feira.

 

A gente acorda. Vai para a escola. Vai trabalhar.

 

Vagabundo.

 

Vai te entregar.

 

Vai te estragar.

 

Vai te enforcar.

 

Vai caducar.

 

Vai trabalhar.

 

 

 

 

 

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