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SÍNTESE. ANTÍTESE.

25.07.2017

Era final de tarde.

 

Inverno.

 

O vento frio começava a desafiar tentativas de se estar agasalhado.

 

A quentura teria que vir de outra parte.

 

Natureza diversa.

 

Ainda ninguém sabia disso.

 

O céu fazia seu desfile silencioso.

 

Últimos azuis bordados por fios dourados. Rosados.

 

Noite caindo.

 

Alguma estrela já estaria lá.

 

Só o olhar inquieto de uma criança deitada no chão a reconheceria.

 

A mulher cortou tesouras e alicates.

 

Ouviu buzinas e insultos.

 

Fazia seu desfile silencioso.

 

De pobreza.

 

Tentativa de sobrevivência.

 

Não via céu.

 

Nem estrelas.

 

Ouvia.

 

O ronco do estômago.

 

Energia consumida pela andança de agora.

 

E por todas as outras.

 

O carrinho cheio.

 

De algo que não alimentava.

 

Mas poderia.

 

Quem sabe.

 

Do meio das latas catadas, do não presta para nada arregimentado.

 

Dali, umas moedas.

 

Quem sabe.

 

Não estava sozinha.

 

Tinha a companhia de um homem.

 

Mais velho.

 

De baixo via-se o alto da sua cabeça.

 

Pintada de branco.

 

Na solidariedade dos dissabores compartilhados apenas caminhavam.

 

Empurravam carrinho. E suas almas.

 

A barriga reclamava aquele companheirismo inócuo.

 

Decerto sentiu o cheiro.

 

A mulher.

 

Desceu a pequena ladeira em busca de sua origem.

 

O fogo.

 

Seguiu o faro.

 

Aproximou-se do vendedor.

 

Fez sua negociação.

 

Demorou-se por ali.

 

Seu assunto não foi escutado.

 

Decerto envolvia fome.

 

E vontade de comer.

 

Deu mais alguns passos.

 

Criou coragem.

 

Moça, você pode me pagar um churrasquinho?

 

Você completa?

 

Recebeu consentimento.

 

Estirou a mão com uma nota rota de dois reais.

 

O vendedor buscou confirmação para o negócio.

 

É jantinha?

 

Sim.

 

Talvez a única em dias.

 

Talvez a única nos próximos dias.

 

Agradeceu.

 

Deixou desejos.

 

De dia. Noite. Vida.

 

Bons.

 

Abençoados.

 

Deixou-se encarar.

 

Tinha a pela escura.

 

Poderia ser bonita.

 

Era mulher.

 

E isso falou por tudo.

 

Os cabelos indicavam tentativa de fazer-se bonita.

 

Tinham uma sombra de tinta.

 

Ou estavam queimados.

 

Seriam mechas se estivessem noutro corpo.

 

Nela, apenas escapavam de detrás da orelha. Entre carapinhas e alisamentos.

 

Tinha a pele escura.

 

Síntese.

 

Antítese.

 

Carregou o prato de isopor ladeira acima.

 

Sentou-se no chão ao lado do homem que a acompanhava.

 

Deu tempo de olhar para seu pé.

 

Era de trabalho.

 

Largo.

 

Esparramado.

 

Sujo.

 

Sofrido.

 

Incansável.

 

Era de mulher.

 

Tinha a pele escura.

 

Síntese.

 

Antítese.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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