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NÃO SOIS MÁQUINA

23.07.2017

Ela me pediu para escrever sobre memórias.

 

O excesso.

 

A falta.

 

Sobre registros.

 

O excesso.

 

A falta.

 

Sobre imagens.

 

O excesso.

 

A falta.

 

Sobre relações.

 

O excesso.

 

A falta.

 

Tudo o que ela me pediu para escrever era sob e sobre a virtualidade.

 

Ela não gostaria que fosse assim.

 

Memórias cheias.

 

Cérebro vazio.

 

Ela mesma me perguntou se eu lembrava do dia em que chorei. No manicômio.

 

Quando o músico/psicólogo tocava violão para aquelas pessoas enlouquecidas pela privação da liberdade. Da dignidade.

 

Eu não lembrava.

 

Ela não podia acreditar.  Nunca havia esquecido. A minha emoção. A beleza da cena.

 

Menos pelas minhas lágrimas. Mais pela arte estar sendo levada a almas tão definhadas. Esquecidas.

 

Por aquele momento significar que a reforma manicomial estava abrindo aquelas portas. Deixariam de existir. E as pessoas teriam nova chance.

 

Ela que era guardiã das fotos de papel da família inteira tinha que gerenciar arquivos, pastas, discos rígidos.

 

Tanta coisa. Para não ter nada. Em mãos.

 

Com cheiros. Cores. Riscos. Datas. Palavras no verso. Datas. Dedicatórias.

 

Manchas e buracos.

 

Rasgos.

 

Preto e branco.

 

Fisionomias esvaecidas.

 

Que existiam, no entanto.

 

Mais do qualquer momento presente. Supostamente eternizado em bits que jamais seriam acessados de novo.

 

Onde estariam?

 

Qual o nome do arquivo?

 

Em que máquina?

 

Melhor continuar vivendo.

 

E abarrotando memórias internas.

 

Das máquinas.

 

Há muito decidira. Melhor ficar com o que os olhos fossem capazes de ver.

 

Enxergar.

 

Diante da coisa, escolher mirá-la sem o auxílio de lentes.

 

Só aceitáveis se de contato.

 

Aliás, o que havia sido feito do contato?

 

Ninguém marca mais encontro.

 

Ninguém liga.

 

Não se conhecem ou se reconhecem vozes.

 

Não há mais expectativa sobre quem está fazendo o telefone ou a campainha soar.

 

Pra que existem mesmo?

 

Peças do museu de grandes novidades.

 

Tudo sendo dito em silêncio.

 

Por meio de palavras virtuais.

 

Aniversário. Casamento. Aniversário de casamento. Morte. Superação. Tristeza.

 

Alegria. Notícia boa.

 

E os votos, os desejos, as condolências, a solidariedade, os parabéns, o ‘tamo junto’. 

 

Enviados pela distância inalcançável dos teclados.

 

Ela queria abraço. Dois beijos. Três.

 

Queria fisionomias.

 

Queria gradações e sutilezas da voz.

 

O vigor dos gestos.

 

Ela lamentava tanto.

 

Queria gritar com cordas vocais.

 

“Não sois máquina.

Homem é que sois”.

 

 

 

 

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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