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ERA HUMANIDADE PURA

15.07.2017

A frase saltou da conversa. Grudou em mim.

 

Achei que era a coisa mais pura, bonita e acertada que ouvira nos últimos tempos.

 

Sincera.

 

Verdadeira.

 

Só podia vir mesmo de alguém que já passara por quase todos os anos que a vida podia oferecer.

 

Um idoso.

 

Um sábio.

 

Um homem que, finalmente, amadurecera.

 

Não precisou da muleta do ‘para sempre’. Ou do ‘eternamente’.

 

Àquela altura sabia que o para sempre, sempre acaba. E a eternidade, estava prestes a conhecer. Se é que havia.

 

Limitou-se ao que podia ofertar. Sem promessas. Sem futuro. Sem grandiloquência.

E era tanto.

 

Significava uma vida sendo lembrada. Um resto de vida. A vida que restasse.

 

E era tanto.

 

Nunca se sabe o quanto.

 

Um homem velho sabe que não muito mais.

 

Tem orgulho de ter tido, estar tendo, a muito recomendada ‘vida longa’.  

 

Para ela, a frase foi sentença.

 

De vida.

 

Deu ao seu esforço a certeza de que valera.

 

Era acertado enfrentar e enfrentar-se.

 

O homem velho. Sua rabugice. O medo que gostava de transmitir.

 

A distância que tinha conseguido impor às custas de seu tamanho.

 

Inibia. Sua voz. Afastava. Seus gestos. Afugentava.

 

Enfrentar-se no que encobria sua capacidade de lidar com aquilo.

 

Era humanidade pura.

 

Mesma matéria de que era feita.

 

Era velhice.

 

Mesma matéria de que poderia vir a ser feita.

 

O homem grande e velho era disso também.

 

Era isso.

 

Humano.

 

Menino. Miúdo. Apequenado pela sua condição.

 

Com boas lupas ou lentes, era possível enxergar. O gigante que fora desde que nasceu. E que ainda era.

 

Bastava enfrentar (se).

 

Sem saber, sabia que era isso.

 

Entrou no quarto.

 

Fez que não ouviu o desafio.

 

Não conseguiria.

 

Era mulher, ainda por cima.

 

Coisa de homem, aquilo.

 

Ela sabia que era coisa dela.

 

E ofertou sua disponibilidade.

 

E deixou claro seu desejo de tentar.

 

Usou cremes e loções.

 

Toalhas e água quentes.

 

O calor das próprias mãos.

 

Humano.

 

O gigante cedeu. Ainda confiava na intuição.

 

Inclinou a cabeça.

 

Baixou a guarda.

 

Fechou os olhos.

 

Nem precisou abri-los para saber.

 

Era mais. Muito mais. Melhor do que podia esperar.

 

“Enquanto eu tiver memória, vou me lembrar da senhora”.

 

Foi o que disse o menino.

 

Recém-barbeado.

 

 

 

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