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OUVINDO MAL-AMADA

11.07.2017

A mulher respondia aos seus interlocutores com ênfase. Resoluta.

 

Não tinha interesse, por agora, em relacionamentos afetivos.

 

Suas palavras eram recebidas com incredulidade e tom jocoso.

 

Todos queriam fazer as vezes de cupido.

 

Riam e apresentavam soluções para o que consideravam um disparate. Apontavam possíveis pretendentes.

 

A mulher seguia nos contra-argumentos.

 

Gostava da liberdade.

 

E não tinha interesse em abrir mão da conquista.

 

Era uma conquista. Recente.

 

E ela apenas começava a se embrenhar em um universo em que não precisava ter respostas para ninguém além dela mesma.

 

Poderia ir e vir com total domínio sobre seus passos. E atos.

 

Podia assistir ao canal que bem escolhesse. Ouvir música a qualquer hora. Deixar a toalha sobre a cama. Largar os pratos sujos na pia por um dia. Ou mais.

 

Podia escolher ir ao cinema, ao parque, ao supermercado sem ter que informar seu paradeiro. Bastava girar a chave na porta e sair sem ter a quem dizer adeus.

 

Podia virar as costas e dormir. Ter dor de cabeça. Estar indisposta. Menstruada.

 

Podia sair para dançar. Flertar. Tomar uma cerveja. Sozinha.

 

Podia usar decote, saia curta, vestido apertado.

 

Cortar os cabelos ou pintar as unhas sem esperar que alguém notasse o feito.

Podia, aos finais de semana, escolher – sem negociações – quem iria visitar, o que iria fazer.

 

Ou se apenas não tiraria os pés da cama, embrulhada que estava em seus cobertores e tinha por perto tudo o que precisava. Controle remoto, água, um saco de biscoitos.

 

Podia não escovar os dentes, não lavar os cabelos, não tomar banho. Deixar o corpo se embalar em seus próprios fluidos e odores.

 

Ela podia tudo.

 

Só não saiba. Ainda.

 

Era recente a conquista.

 

Estava liberta.

 

Mas não sabia ainda o que fazer com a informação. Com a condição.

 

Por enquanto, lamentava a perda da mãe. E do noivo.

 

Uma por morte. Outro por desgaste. Do relacionamento.

 

Uma por imposição da vida. Infortúnio. Ciclos encerrados.

 

Outro por livre arbítrio.

 

Deixavam saudades.

 

Um gosto amargo na boca.

 

Tontura. Torpor.

 

Não conseguia entender as provações.

 

A mãe, essa sim. Podia ter de volta. Sentia muito.

 

O noivo, não. Já foi tarde.

 

E ela era a pessoa que podia tudo.

 

Excesso de possibilidades.

 

Não cuidasse, paralisaria diante delas.

 

Falava sobre isso para ver se a verdade repetida virava ação.

 

Mas em troca da convicção, ganhava escárnio.

 

Só podia ser história para boi dormir.

 

Mulher precisa de homem.

 

Precisa de cabresto.

 

Se não fica chata que só.

 

Briguenta.

 

Ouvindo mal-amada.

 

Gritada mal-comida.

 

Embrulhava as compras. Discorria sobre a nova condição.

 

Escárnio. Tom jocoso.

 

Ela dava de ombros.

 

Estava livre.

 

 

Foto: Gilberto Soares

 

 

 

 

 

 

 

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