Please reload

PROCURE POR TAGS: 

05.08.2020

04.08.2020

11.07.2020

07.07.2020

Please reload

POSTS RECENTES: 

SIGA

  • Facebook Clean Grey
  • Twitter Clean Grey
  • Instagram Clean Grey

ERA DA VILA O ANJO

05.07.2017

 

 

A notícia veio na madrugada.

 

Pelo carro de som do FaceBook.

 

Era notícia típica do horário.

 

Era notícia ruim.

 

Tinha virado anjo.

 

Àquelas alturas anjo caído.

 

Da moto.

 

Pensei em todas as vezes em que vi o sorriso dele em alto relevo. Sobressaindo-se ao rosto, ao corpo.

 

Aparecendo antes.

 

Ele era só sorriso.

 

Pelo menos nas vezes em que o vi.

 

Fiz as contas. Eram muitas nesses anos todos.

 

Umas de quando nem sabia seu nome.

 

Outras de quando não sabia quem era.

 

Permaneci sem saber muito até as notícias surgirem.

 

Aí, soube mais.

 

E fiquei me perguntando por que ele mesmo não me contara.

 

Nunca conversamos.

 

Nada além dos cumprimentos de quem se encontra nas folias da vida.

 

Abraço.

 

Isso já substituía, e bem, as palavras.

 

Foi isso que eu fiz depois de contar os sorrisos.

 

Quis saber por que nunca conversamos. Nunca viramos amigos. Nunca bebemos juntos.

 

Não fui ao seu carnaval. Nem aos ensaios.

 

Quis saber por que não fui.

 

Achei que haveria sempre. Carnaval. João.

 

Não levei em consideração o imponderável.

 

Não pensei que ele poderia virar anjo antes que fôssemos íntimos. Antes que eu fosse uma folia-vilã da Vila.

 

As pessoas, os artistas, têm nomes bonitos.

 

Indicam suas origens na forma como decidem ser chamados.

 

Joãozinho da Vila (Planalto).

 

Carregar um lugar no nome é prova de amor.

 

Carregar no nome um lugar só pode ser por amor.

 

Isso tem beleza.

 

Lembra os antigos, os da roça. Precisam identificar as pessoas dizendo de quem elas “são” – do pai, da mãe, do marido, da esposa.

 

Vavá de Nôzinho.

 

Isso tem poesia.

 

Porque era poeta nosso João.

 

Além de ser da Vila.

 

Era da vida também.

 

Era a própria vida.  

 

Até que chegou a morte.

 

Coisa parecida com vazio. Dor. Silêncio.

 

A Vila não calou.

 

O Museu da República também não.

 

Os amigos não calarão.

 

Já tem sarau marcado.

 

Vai ter carnaval.

 

O anjo levantou-se altivo.

 

Bateu asas.

 

Voou.

 

Sorrindo.

 

Acenou como quem cumprimenta o público de cima de um carro alegórico.

 

Subiu.

 

Soou a bateria.

 

Roncou a cuíca.

 

Um apito.

 

Chegou.

 

Corpo. Presente. Para a igreja de madeira. Da Vila.

 

 

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram Black Round