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RISCO DE VIDA

04.07.2017

Eu a vejo quase todo dia.

 

Todo dia ela está lá.

 

Há dias em que a vejo. Noutros, meus olhos veem o que está dentro de mim e eu não vejo, ou não percebo, o que compõe a paisagem.

 

É na paisagem que a vida acontece.

 

Ela faz parte da paisagem.

 

Da cidade.

 

Da Esplanada dos Ministérios.

 

Onde a vida da cidade acontece. E por onde gira a vida do país.

 

Talvez ela não se dê conta disso.

 

Nem eu.

 

Sem conhecê-la me via temendo por sua vida.

 

Alguém acenou.

 

E ela, como a criança inocente que busca um doce oferecido por um desconhecido, correspondeu.

 

Foi ao encontro do passageiro.

 

Ele abrira a janela do carro para chamar sua atenção.

 

Foi seu erro.

 

Ao dar atenção a ele, o desconhecido, esqueceu-se de si. A pessoa de quem era íntima. Ou não.

 

Cruzou a rua sem olhar para os lados.

 

Saiu correndo para cumprir seu oficio.

 

O sinal estava fechado lá.

 

Mas aberto no ponto em que se encontrava.

 

Quase não deu tempo.

 

Passou correndo.

 

Mas as rodas alheias eram mais rápidas do que suas pernas.

 

Foi alertada por uma buzina estridente e, decerto, em apuros.

 

Em Brasília placas indicam a preferência da cidade pelo silêncio no trânsito.

 

Logo, o sinal sonoro anuncia ou um desastre iminente ou que alguém está trancando outro motorista no hábito – quase inevitável – de estacionar em fila dupla.

 

Naquele caso, era o desastre que estava em questão.

 

Não tivesse pulado, eu seria testemunha de um atropelamento.

 

De um ferimento.

 

Ou de uma morte.

 

Não fosse um dia em que eu não estivesse olhando para dentro de mim, e estaria livre.

 

Mas o coração disparou. Movimentei o corpo para frente. Devo ter feito algum gesto em tentativa inútil de poupá-la.

 

Eu era parte da cena.

 

Porque o que os olhos não veem o coração não sente.

 

Eu via.

 

Uma mulher. Cumprindo o seu ofício. Trabalhando. Tão cedo. Arriscando a vida.

 

Conseguiu se desviar.

 

Por um deslizar do corpo.

 

Deve ter passado rente ao carro.

 

Sentido sua temperatura.

 

Ter se sujado na fuligem.

 

Era altiva.

 

Vestia uniforme.

 

Tinha a elegância das mulheres que trabalham. Tão cedo. Na rua.

 

Ela sorriu.

 

Aliviada por ter sobrevivido.

 

Percebeu o perigo quando viu que não havia chance de ter escapado.

 

Mas estava vivinha da silva.

 

Por certo, obra do destino.

 

Do Anjo de Guarda.

 

Ainda bem que não esqueceu a oração quando acordou.

 

Despertou junto os seus protetores.

 

Passado o susto, chegou do outro lado.

 

Onde a mão acenara.

 

Segura por um carro de luxo.

 

E um sinal fechado.

 

O paletó escorria pelo braço dobrado.

 

Eu enxergava os punhos.

 

Em um segundo, estava resolvido.

 

Ela jogou pela fresta da janela o jornal gratuito que distribuía.

 

Pelo qual arriscara a vida.

 

Com o qual defendia a vida. Tão cedo. Na rua.

 

Voltou para o sinal que quase havia sido seu algoz.

 

Trabalhava para dois senhores.

 

Duas pistas.

 

Dois sinais.

 

Vermelhos. Verdes. Amarelos.

 

Ritmados.

 

Seguiu o ritmo.

 

Era cedo.

 

A manhã começava.

 

Sua vida também.

 

 

 

 

 

 

 

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