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ERA 23 DE JUNHO

24.06.2017

Olhei para a sala – paredes e tetos brancos e nus.

 

Não vi lá bandeirinhas coloridas.

 

Olhei para o rádio – tocava notícias.

 

Não saiam das caixas de som os forrós e baiões que me fariam rodopiar a saia imaginária e girar com o par inexistente.

 

Olhei para dentro e não evoquei lembranças.

 

Estava oca.

 

Olhei para minha filha e, sem alegria ou espanto, disse:

 

- Hoje é véspera de São João!

 

Queria dizer que hoje era dia de fogueira na casa da avó, em Campina Grande-PB.

 

Mas achei que seria tortura demais. Para nós duas.

 

Ela respondeu:

 

- Nunca me senti tão desanimada num São João.

 

E eu concordei:

 

- Eu também não.

 

O nosso diálogo lacônico me deu um certo alívio. Sentíamos a mesma coisa e parecíamos não querer revirar ou remexer essa emoção desprovida de sentimentos.

 

Estávamos sofrendo e saudosas pelo que não estávamos desfrutando, pela invisibilidade de um mês de junho no centro-oeste. Mas estávamos firmes no propósito de seguir a vida sem sentimentalismos.

 

Para mim, era claro e inevitável que o dia 23 de junho devia ser de alegria a qualquer custo e de viver o Santo do Carneirinho mesmo que fosse por meio de todas as boas lembranças que os seus festejos já deixaram na minha vida.

 

Mas eu não queria abrir esse espaço.

 

A resposta interna é de que ao longo dos anos já havia escrito tudo o que poderia sobre o mês de junho. Não havia novidades nem inspiração para outro texto. Não havia motivação. Nem disposição. Nem abertura.

 

Eu não queria lembrar do milho chegando em casa, quase madrugada. Nem queria ver mamãe contando do movimento da feira e do preço da mão (de milho). Se a chuva tivesse sido boa, era fartura e pechincha. Se a seca castigara, o preço era de ouro.

Eu não queria lembrar da multidão na cozinha, amassando a massa dos bolos, cortando picado (sarapatel), ralando milho, mexendo canjica.

 

Eu não queria lembrar de Luiz Gonzaga e outros conterrâneos nordestinos na vitrola.

 

Eu não queria lembrar do esquenta no terraço. Desde cedo todos reunidos em volta de uma talagada de cachaça e um pedaço de bode ou de galinha de capoeira roubado do cardápio da noite.

 

Eu não queria lembrar da compra dos fogos e dos balões.

 

Eu não queria lembrar do vestido novo de última hora.

 

Eu não queria lembrar dos amigos reunidos e das presenças de papai e de Raniere.

 

Eu não queria lembrar da fogueira armada desde a véspera. Da admiração ao seu tamanho e beleza, da ansiedade em saber se acenderia rápido ou se daria mais trabalho.

 

Eu não queria lembrar da decoração caprichada e das bandeiras que dançavam ao vento, de olho no Açude de Bodocongó. Era dali que víamos o outro lado da cidade, enfumaçado. Era dali que ouvíamos os fogos de artificio de toda a vizinhança. E o eco dos mais longínquos.

 

Estava firme na decisão.

 

Não lembrei de nada disso até tomar café da manhã com uma amiga e ela me mostrar um vídeo de O Boticário homenageando Luiz Gonzaga e o São João, por meio da Orquestra Sanfônica de Exu.

 

Eu avisei que não queria ver. Mas ela deu o play e eu, que começara de rabo de olho, me debrucei sobre aquilo.

 

E chorei.

 

Ela deu o stop.

 

Mas era tarde demais.

 

Era 23 de junho e eu estava tomada pelo meu São João – o que vivi junto aos Barbosa.

 

E que permanece em mim. Mesmo que eu não queira lembrar.

 

 

 Fogueira do Quilombo dos Barbosa/23 de junho de 2017. Foto: Thiago Barbosa

 

 

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