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RESTOU UM GATO

05.06.2017

Não era sua intenção cuidar de um bichano – mas foi escolhido por um, que havia sido escolhido por outro.

 

Explica-se.

 

Um amigo ia viajar e pediu um favor daqueles que só se pede a alguém de muita confiança.

 

- Fica com o José para mim?

 

A pergunta não foi recebida com tanta tranquilidade. Mas se era aquela pessoa de muita confiança a quem se pede para cuidar de um bichano durante uma viagem a trabalho, cabia honrar o reconhecimento e não apresentar negativas.

 

José, na verdade, era uma menina, uma fêmea, cujo dono se recusava a enxergá-la como tal e a chamá-la pelo verdadeiro nome.

 

Até hoje não se sabe se isso causou danos à personalidade daquele ser cuja identidade era negada por uma razão até hoje ignorada.

 

Mas o comportamento até que demonstrava não haver danos psicológicos. Era dócil, o José. Manhoso como as gatas. Enroscava-se com facilidade, exibia um andar manso e o olhar indolente, porém viçoso, ainda que os olhos fossem cada um de uma cor.

 

Os cuidados estavam indo a contento. Até que ele mesmo precisou viajar, enquanto o amigo ainda estava fora. O problema em princípio enorme foi facilmente contornado. Coube a uma terceira pessoa, seu companheiro de então, os cuidados com José.

 

Além da casa, dos sentimentos, das escovas de dentes, da vida a dois compartilhariam um gato.

 

No meio da sua viagem foi surpreendido por uma ligação. Era uma reclamação, na verdade. O dono de José, já de volta, não havia conseguido reaver sua felina.

 

Afeiçoado àquela presença, o cuidador postiço se recusava a perder a companhia, quase protagonizando um crime. Aquilo estava mais para um sequestro, um furto, do que para os cuidados esperados.

 

Ele pediu um tempo. Faltava pouco para estar de volta. De corpo presente resolveria a questão, com certeza. Pelo menos foi a promessa firmada.

 

As coisas, no entanto, não foram tão fáceis. Para manter a amizade, para não separar pais e filhos, para manter seu casamento na paz desejada, deu um jeito de devolver José. Mas teve o cuidado de colocar outro animal em seu lugar.

 

Certamente não seria difícil que ele despertasse o mesmo sentimento que o antecessor. Mas o novato nem bem chegou em casa, demonstrou o contrário.

 

Arisco, fez gestos e sons característicos de gatos irascíveis que escolhem não gostar de alguém.  Selou ali o que viria a ser seu comportamento até a eternidade em que durasse o amor dos seus novos pais.

 

Tendo rejeitado amar a quem tanto o que quis, o gato foi a herança, o bem que lhe sobrou quando o casal deixou de compartilhar a casa, os sentimentos, as escovas de dentes, a vida a dois.

 

Na divisão de bens, restou um gato. 

 

 

 

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