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SEM AMARRAS

03.06.2017

A menina cresceu.

 

Cresceu sua saia.

 

Saiu a brincadeira de roda.

 

Mas não a vontade de rodar.

 

Lembrava de quando brincava assim. Livremente. No começo, devagar. Depois, sob uma velocidade que aumentava até fazer seus braços abertos sumirem – refletindo a mistura de todas as cores, da sua cor que se esvaia à medida que acelerava.

 

Lembrava das reprimendas que ia surgindo.

 

Você vai ficar tonta.

 

Cuidado para não cair.

 

Mas era justamente isso que buscava.

 

Quando já não suportava manter-se de pé, deixava-se cair no chão. Corpo amolecido.

 

Entorpecido.

 

Fechava os olhos e sentia o mundo circular.

 

Desafiava o mundo.

 

Sabia que dali a instantes ele estaria estático de novo.

 

Redondo. Mas devagar, quase parando.

 

Ela, ela tinha urgências.

 

A menina cresceu.

 

Já não tinha outras mãos para brincar de ciranda.

 

Já estava longe a infância.

 

Mas por dentro ela continuava menina. E com pressa.

 

Podia simplesmente girar.

 

Como era menina, precisava de um brinquedo.

 

Buscando na memória, encontrou-se rodopiando e sendo rodopiada por um aro plástico.

 

Alimentou o desejo de ter um.

 

Mas como não era mais menina, sentiu vergonha do intento.

 

Imaginou-se carregando o objeto pelas ruas – entre a loja e sua casa – onde finalmente poderia recobrar a liberdade.

 

Não suportou a imagem.

 

Todos saberiam que era para ela. Que ela queria, a despeito de ser mulher, brincar feito criança.

 

Onde já se viu?

 

Compartilhou a aspiração com os mais próximos.

 

Onde já se viu?

 

Perguntaram.

 

E de repente, ela já não queria saber onde.

 

Não queria respostas e nem faria perguntas.

 

Não aceitaria amarras.

 

E decidiu.

 

Como a provar que estava certa em prosseguir, encontrou um tipo que nunca tinha visto antes. Desmontável. De encaixe.

 

Em partes e encaixotado. Com ele assim, poderia chegar em casa em segurança.

 

Ninguém sequer suspeitaria o que carregava na sacola.

 

E a sacola carregava mais do que um objeto.

 

Ela sabia.

 

A partir daquele dia a mulher vira menina e vira mulher que vira menina.

 

Sua alma apenas gira.

 

Por horas.

 

Sem que caia.

 

Giram a menina e sua saia.

 

Saiu o medo.

 

Entrou a brincadeira de rodar.

 

Ela tem um bambolê.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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