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QUANDO O CEMITÉRIO SOMOS NÓS

02.06.2017

Acho que felizes são os tempos em que não acumulamos lutos.

 

Acho que felizes são os tempos em que nem pensamos sobre isso.

 

Até que um dia somos atropelados por uma perda e ela parece abrir um portal para outras que se sucedem sem dó das nossas penas e ais.

 

Eu sei o dia e o ano dessa abertura na minha vida.

 

Passei por uma grande virada. Foi não apenas uma perda, mas o ganho de algo que eu nunca tinha vivido e nem sabia como fazê-lo.

 

A primeira vez, a estreia do luto também tem disso – a força avassaladora das inaugurações.

 

Aí, depois da primeira, nós nos achamos prontos para qualquer coisa que venha.

 

Alardeamos isso com palavras cheias de significado, ocas de sentido.

Mas não sabemos disso até que venha o segundo luto.

 

Eu sei o dia e o ano dessa segunda vez na minha vida.

 

Aí, eu já não tinha apenas uma inserção no mundo do luto, mas duas.

 

E o portal estava não apenas aberto. Estava escancarado. Estava sem grades, guardas, muros, câmeras, vigilância.

 

Estava fadado às falhas mais amadoras dos sistemas de segurança.

Fiquei encurralada.

 

Não tinha como gritar, pedir socorro, chamar a polícia, mudar de lado na calçada, blindar o carro, fechar o vidro, colocar alarme.

 

Virei um cemitério.

 

Ser um cemitério no deixa muito próximos do vazio.

 

Nos desgasta muito. Nos desidrata. Nos mata.

 

Já não carregamos as sensações de morte. Somos ela.

 

Estamos mortos e temos que viver. Estamos mortos e temos que acordar. Estamos mortos e temos que sorrir. Estamos mortos e temos que nos alimentar. Estamos mortos e temos que trabalhar. Estamos mortos e temos que dar conta de todas as obrigações.

 

Estamos mortos e temos que ter prazeres. Estamos mortos e temos que permanecer convivendo com o mundo como se já não passássemos de fantasmas. Almas transparentes que vagam.

 

Que não nos vissem, então.

 

Mas não ganhamos esse poder. Ao contrário, todos os braços que se esticam para nos tocar e transpassar, na verdade abrem buraco e revolvem as entranhas. Aumentam o buraco e saem de dentro de nós sem respingar sangue enquanto nos condoemos hemorrágicos.

 

Curvados e feridos é como tudo e todos nos encontram. E parecem se colocar a serviço da situação.

 

Revezam a pá que vai cavar mais um pouco a nossa cova, revezam as mãos que vão fechar suas paredes com tijolos e cimento.

 

Eu não gosto de morrer tanto. De ter que matar tanto.

 

Eu não gosto de ser obrigada a conviver com os coveiros de mim.

 

Eu não gosto de acumular tanto sono profundo que dizem ser a morte.

 

Eu não gosto de receber compulsoriamente os lutos.

 

Eu gostaria das lutas. Outras. Tantas. Felizes. Iluminadas.

 

Mas estou muito sem vida para elas.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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