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O SUSTO

25.05.2017

A moça se assustou.

 

Era mulher.

 

Feminina.

 

Sexo feminino.

 

Questão de gênero.

 

A moça se assustou porque de repente tomara consciência disso.

E da pior forma.

 

Como a má noticia transmitida em telefonema de madrugada.

 

A moça era açoitada pela sua realidade a cada passo, a cada gesto, a cada decisão, a cada atitude, a cada respiração. Era mesmo porque existia que se assustava assim.

 

A moça se assustava com as palavras do delegado.

 

A moça se assustava com as notícias do jornal – davam conta do número de mulheres assassinadas. Davam conta do padrasto que estuprou a enteada para se vingar da mãe da menina.

 

E gritava isso enquanto consumava o ato e consumia vidas que ficariam vivas, no entanto, considerando-se que haviam partido ali mesmo enquanto ele consumava e consumia.

 

A moça se assustava com as palavras e promessas de amor – concluíra que eram estratégias de manipulação. Como ademais, todas as mentiras.

 

A moça se assustava com o silêncio.

 

A moça se assustava com estar dentro de casa ou estar na rua.

 

Não se sentia segura, ela.

 

Não devia mesmo. O mundo estava mudado. Esses eram outros tempos.

 

Em que as moças e ela mesma ousaram pensar que eram novos e melhores.

 

Eram outros. Porém tão antigos quanto os outros. Pareciam mesmo piores.

 

A moça contabilizava perdas. E esperava que o tempo passasse para que entendesse que, na verdade, em muitos casos,  eram ganhos.

 

Ganhos dela mesma.

 

Deixava de ser usurpada e abocanhada no que tinha de melhor.

 

Deixava por decisão mesma dos usurpadores – decerto cansados de sua lida.

 

Decerto cansados de tanta malevolência, de tanto engodo, de tanto enredo, de tanta artimanha, de tanta feldade.

 

Benditos os que se cansavam de sua luta e largavam a moça acusando-a de tantas coisas.

O passar do tempo a aliviava.

 

O passar do tempo limpava seus caminhos.

 

E faziam com que enxergasse melhor. Mesmo que nunca nitidamente por completo.

 

Porque as lentes da moça tinham algo que insistiam que ela devia se manter incólume e imune a algumas verdades que ela apenas parecia intuir ou farejar de longe.

 

Diariamente era como se banhasse em águas caudalosas. Salgadas. Com poder de cura.

Diariamente se limpava.

 

Diariamente afunilava-se em si porque menos povoada.

 

A moça gostava desses rumos.

 

Acreditava na vida.

 

Como o menino do morro do São Carlos.

 

Por vezes queria desistir de tudo e de todos.

 

Achava até que consolidava essa decisão.

 

De uma forma em que não morria, como podia parecer óbvio.

 

Ao contrário, renascia.

 

Ao contrário, se refazia.

 

Ao contrário, entendia tanta coisa.

 

E se desentendia.

 

Mas seguia.

 

Porque na estrada que a moça tomara o único rumo era esse.

 

Continuar.

 

Sem saber bem onde ia dar.

 

Não era isso o importante.

 

Porque como dizia seu poeta preferido...

 

O importante não era a viagem.

 

O importante, para a moça, era a paisagem.

 

 

 

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