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DA RAÇA DA PEDRA DURA

15.05.2017

Dia das Mães.

 

Já não é possível fazer como fomos instruídos na infância. Decorar uma coreografia, encomendar uma roupa padronizada à costureira coletiva, enfeitar os cabelos e cantar no palco da escola: Mamãe, mamãe, mamãe...

 

Fiz isso e não me condeno por tê-lo feito. Minha filha, para meu alívio, já não faz.

 

Desenhou, pintou uma aquarela, fez um chaveiro em tricô de dedo e me entregou de presente. Essas foram as missões institucionais, organizadas pela escola.

 

Da parte dela, idealizou um café da manhã, pediu ajuda ao pai, me pediu para ficar no quarto (para a minha alegria e descanso a mais) e chegou com suas bandejas recheadas de pães, frios, suco e café preto.

 

Simplicidade com afeto. Bons momentos de partilha.

Dia das Mães.           

                           

Já não é possível fazer como fomos instruídos na infância.

 

Minha mãe, Maria, estava distante fisicamente. Quis muito ter estado com ela. Mas não foi possível.

 

Sempre quero muito dizer o quanto é importante para mim – esteio, palavra de conforto, amparo, porto seguro – para todos nós, seus filhos. Mas não sei se consigo. Acho que penso e sinto mais do que demonstro.

 

Já não tenho meu pai e sei o que é viver as datas especiais com uma ausência real. De não poder falar no telefone, de não ouvir a voz, de não ver a pessoa na foto das comemorações, de ter como companhia lembranças e saudades. O vazio e a solidão. A dor das impossibilidades.

 

Dia das Mães.

 

Já não é possível fazer como fomos instruídos na infância.

 

Impossível apenas comemorar num espaço fácil de cair num limbo sem significado para além do encontro, da gratidão, do festejo.

 

Agora se faz necessário pensar na condição da mulher. Independentemente ou anteriormente ao fato de ser mãe.

 

Suas jornadas, suas lutas, suas peculiaridades, sua belezas, suas mazelas, suas fragilidades, suas fortalezas. Suas solitudes. Suas solidões.

 

Sua condição de nascer marcada. A cor púrpura. A bruxa. A puta. O objeto. O corpo. A cor preta. A vagina. Seu pênis.

 

Sua sexualidade. Suas renúncias. Seus fardos. Seus castigos. Suas buscas. Suas ingenuidades. Suas crenças. Seus desejos. Seus gozos.

 

Seu aprisionamento em um tempo que parece não evoluir. Um tempo de julgamentos, de assassinatos, de submissões, de abusos.

 

Seu aprisionamento em um tempo que sufoca. É preciso ter cuidado para cavar nele o espaço do autoconhecimento, do empoderamento, da coragem de ser o que se é, de se depurar e peneirar bagaços e caroços para que reste a fibra, o suco, o sumo, o lubrificante, a luz, a força, a fé.

 

Seu aprisionamento em um tempo que precisa de quebra de algemas, de vidraças, de cadeados, de amarras.

 

Dia das Mães.

 

Já não é possível fazer como fomos instruídos na infância.

 

Porque já não é possível acreditar que somos donas de tudo, rainhas do lar, a razão dos dias, feitas de amor e esperança.

 

Há uma estrutura e uma cultura e uma questão de gênero e um patriarcado e um machismo e um racismo que todos os dias nos atacam, nos machucam, nos invisibilizam, nos anulam, nos pagam menos, nos negam trabalho e emprego, nos estupram, nos violam, nos empurram para um abismo, nos calam, nos humilham, nos assediam.

 

É preciso estar atentas. E fortes.

 

No Dia das Mães somos mulheres de lutas diárias.

 

Da raça da pedra dura.

 

 

 

 

 

 

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