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ESTAVA À TOA NA VIDA

19.04.2017

Ouvi o som e o reconheci.

 

Pretensão descobrir quem tocava só pelo estilo e pelo repertório.

 

Apurei os ouvidos. Segui a direção.

 

Parecia vir de algum ponto da quadra. Outro bloco de carnaval? E eu não estava sabendo?

 

Fui numa janela. Fui noutra.

 

Não dava para ver.

 

Mas dava para ouvir.

 

Para descobrir o resto teria que me aproximar.

 

Eu vinha de uma vontade de dormir, pós-almoço, pós-cervejinha. Já me preparava para preguiçar a despeito de todas as missões domésticas que pululavam na minha frente.

 

Mas desci.

 

Como movida à corda – era impossível não ser levada por aquele convite explícito embora inexistente.

 

Criei coragem.

 

Fui de penetra.

 

Desci as escadas.

 

Apurei novamente os ouvidos.

 

Segui o rumo.

 

Logo avistei o grupo.

 

Ia em cortejo.

 

Fui junto.

 

Guardando certa distância. Ainda tímida. Esperando que a música causasse sua revolução em mim. Precisava acordar. Logo, estava dançando, cantarolando. Aproveitando o presente.

 

Sete mulheres. Oito homens.

 

Instrumentos de sopro e de percussão.

 

Catuquei uma musicista: É ensaio?

 

É. Amanhã vamos tocar em um casamento aí no Bloco G.

 

Quem são vocês?

 

Calango Careta.

 

E eu estava certa. Sabia que eram eles quando o vento trouxe a música apartamento adentro.

 

Sei que são da rua. Já entrevistei um dos seus criadores. Já participei de eventos públicos e gratuitos promovidos por eles.

 

Sei que gostam de distribuir música.

 

E sempre encontram quem saia por aí com sua rede, como caçadores de borboletas. Apanhando um pouco daquela alegria, daquele batuque.

 

Olhei para os lados, olhei para trás.

 

Já havia um monte de gente fazendo o mesmo que eu – se deixando levar.

 

Fiquei na dúvida.

 

Afinal, música é ou não barulho para essa gente da capital?

 

Estivessem os calangos parados ganhariam tantos adeptos? Ou logo síndicos, prefeitos e polícias seriam acionados?

 

Seriam acolhidos ou receberiam rajadas de baldes de água ou tiros de ovos podres?

 

Andantes, deixariam alegria passageira. Serviriam para um registro – um clique, um vídeo.

 

Assim, permitiriam que os moradores pudessem dizer que Brasília era uma cidade muito interessante. Festeira. Cheia de música. Vazia de barulho.

 

Aquela música era itinerante e mambembe.

 

Fugiria já já com o circo.

 

Talvez por isso aquele povo era aclamado.

 

Quem não tomava a decisão de segui-lo marcava presença de alguma forma.

 

Adultos, crianças, idosos.

 

Um invariável sorriso em todos os rostos.

 

Os ocupantes dos carros freavam bruscamente.

 

Os skatistas paravam.

 

Os bikers desciam do equipamento.

 

Era A Banda de Chico Buarque.

 

Dezenas de celulares apontados ao mesmo tempo com o objetivo de registrar a passagem daquele som móvel que ousava cortar o silêncio da cidade em feriado.

 

As janelas de repente se povoavam.

 

E descobriu-se que os prédios de Brasília são habitados.

 

Do alto, palmas e gritos.

 

Parabéns!!!

 

Estaciona aqui!!!

 

O cortejo aumentava.

 

Os sorrisos também.

 

Magia.

 

Fomos todos convidados para o casamento.

 

O cortejo saíria às 19h cortando novamente a quadra e seus espaços verdes. Sobretudo seu silêncio.

 

E soaria a marcha nupcial.

 

Mas de repente, já em outra quadra, para meu desencanto, o que era doce acabou. Tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou.

 

E a música voltou a ser barulho.

 

E eu voltei a ficar à toa na vida.


 

 

 

 

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