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O PESO DO MUNDO EM MINHAS COSTAS

17.04.2017

Mulher, onde você guarda sua raiva?

 

Eu parei - surpresa.

 

E descobri não ter resposta.

 

Para ela era difícil entender minha calmaria, minha disposição para considerar o outro lado, para perdoar, para ponderar. Minha fala mansa. A suposta incapacidade de guardar mágoa.

 

Da área da saúde mental ela acredita que isso não seja tão inofensivo assim. Que para oferecer ao mundo essa aura zen, o preço que eu pago é alto.

 

Mesmo que eu não saiba quanto.

 

Mesmo que esteja embutido em outros custos. Venda casada. Fraude.

 

Pudesse, levaria o caso ao Procon.

 

Propaganda enganosa.

 

Para mim também é difícil saber-me assim.

 

Numas vezes queria mesmo era explodir. Gritar verdades. Bater na cara. Atirar para o alto. Esculhambar. Mandar se foder.

 

Mas não tenho outro comportamento a oferecer.

 

Outro tom de voz.

 

Outra reação.

 

E nem uma resposta formulada e consciente para dar ao questionamento dela.

 

Mas a pergunta era aguda. Traspassou-me. Feriu-me de morte.

 

Agora também queria aquela resposta.

 

Podia ser a solução. Podia mudar tudo. Podia me transformar em quem talvez eu seja. Revelar-me.

 

Fiquei pensando.

 

Onde eu guardo minha raiva?

 

De repente, algo em meu corpo se antecipou e me mostrou o lugar - onde eu guardava minha raiva e tantos outros sentimentos e sensações que eu não conseguia exprimir de outras formas.

 

- Nos ombros.

 

Respondi.

 

E ela assentiu.

 

Pareceu verossímil e plausível.

 

Parecia que ela já desconfiava.

 

Não sei se fez aquela expressão de “eu sabia”. Sei que considerou aquele lugar com gravidade.

 

E não concordou com que ele existisse.

 

Eu precisava com urgência ressignificar minhas dores – tirá-las do corpo. Expressá-las da forma e no tempo corretos.

 

Não fazê-lo tinha custo alto. Ela nem sabia valorar.

 

Enquanto não encontrávamos o caminho ideal a seguir, eu observava.

 

Qualquer coisa que acontece comigo e me desestabiliza de alguma maneira, se transforma instantaneamente em nós, dores e queimação nos ombros.

 

Outrora leves, eles imediatamente viram halterofilistas. Seguram mas não suportam.

 

De repente, tudo desaba. Ombros, corpo, eu inteira.

 

Eu estilhaçada.

 

Eu partida.

 

Eu toda ombros.

 

Eu carregando o mundo literalmente nas costas.

 

“É... você é assim mesmo. Mais acumula do que bota para fora”.

 

Isso não foi ela. Foi ele.

 

E  me mandou fazer uma arte marcial.

 

Gritar. Dar golpes. Gesticular.

 

Gostei da ideia.

 

Fiquei me imaginando.

 

Um Ippon Seoi Nague seria ideal.

 

E tudo estaria arremessado por sobre os ombros.

 

E pronto.

 

Ippon para mim!

 

 Atlas na fachada do Palácio de Linderhof, Alemanha

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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