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O QUERER

04.04.2017

Foi daqueles incidentes corriqueiros.

 

Parecia coisa boba. Sem desdobramentos.

 

Mas não foi bem assim.

 

A topada no móvel de casa. A dor lancinante que devia ter sido passageira, mas não foi.

 

O inchaço que se seguiu.

 

A mudança na cor da pele.

 

O diagnóstico: dedo mindinho quebrado. Quinze dias em casa. Pé imobilizado.

 

A vida impusera uma parada. Um descanso. Momentos de reflexão. Pé pra cima ajuda nessas horas.

 

Mas um pé pra cima em frente ao mar, no período de férias.

 

Um pé pra cima em casa com a escolha de deitá-lo ao chão.

 

Tudo isso daria à expressão significados outros.

 

A realidade era diferente.

 

Pé pra cima e mãos atadas.

 

Os filhos, a casa, o companheiro, o trabalho. Os cuidados consigo.

 

Teve que assistir à vida passando na sua frente, como um documentário na tela de cinema – espectadora.

 

Qualquer decisão, qualquer atitude exigia muito mais do que o impulso de realização.

 

Exigia um pedido de socorro, de ajuda. Um aparador. Uma escora.

 

A famosa mão amiga.

 

Era um exercício de humildade.

 

Devia ser essa a lição a ser colhida daquele acontecimento.

 

Não reclamava. Contou com uma rede de apoio.

 

Tudo corria mais ou menos bem.

 

Exceto pelos desejos que tinha.

 

Como se fosse mulher grávida querendo pato com tucupi de madrugada.

Impossibilidades

 

Era obrigada a lidar com elas.

 

A fechar os olhos e mentalizar, visualizar.

 

Parecia a aula de meditação da qual participara uns meses antes.

 

Para sobreviver àquela camisa de força precisava mesmo ter paciência.

 

Queria dirigir.

 

Sentir o vento no rosto.

 

Olhar a cidade sob a perspectiva de motorista.

 

O que queria mesmo, entre todos as possibilidades, era ir ao supermercado.

 

Ver a cor das frutas, verduras e legumes.

 

Sentir seu cheiro.

 

Passear sobre suas texturas.

 

Tocá-los.

 

Comprá-los.

 

Poder preparar com eles uma farta salada. Ou uma revigorante sopa.

 

Ao invés disso, era obrigada a terceirizar a lista de compras.

 

Não era a mesma coisa.

 

Se escrevesse tomate – pensava em tomate, pão, queijo, carne.

 

Pensava em algo que nem pensava.

 

Desejava ser surpreendida.

 

Que nada.

 

Para o tomate, tomate.

 

Para cada item apontado, nenhuma criatividade, nenhum investimento a mais.

 

Uma amiga tentou resolver a questão.

 

Saberia se portar no supermercado, como a outra desejava.

 

Tomou a missão para si.

 

Pegou a lista e o cartão de crédito.

 

Uma longa entrevista antecedeu o ato.

 

Não queria falhar.

 

Queria cumprir as expectativas.

 

A missão era nobre.

 

Procurou se cercar de todos os cuidados, minimizar os riscos, reduzir os danos.

 

A lista cresceu. A crença nas surpresas também.

 

Ao final, tudo certo.

 

Não havia reclamações.

 

Mas também não havia inovação.

 

Estava grata e com a geladeira sortida.

 

Mas o que queria mesmo, entre todos as possibilidades, era ir ao supermercado.

 

 




 

 

 

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