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FUNCIONÁRIO DO MÊS

31.03.2017

Aquele moleque andava pensando muita besteira.

 

Era bom que achasse alguma coisa para fazer. Alguma coisa útil, de bem.

 

Ajudar em casa era uma boa ideia.

 

Tempos duros. Família grande, dinheiro pouco, necessidades muitas.

 

Vai trabalhar!

 

Ele foi.

 

Um trabalho condizente com seu porte físico, com sua idade e com as modas da época.

 

Vender leite? Jornal? Pão?

 

Picolé e não se fala mais nisso.

 

Procurou a empresa, acertou os detalhes do bico e à tarde estaria lá, a postos, para subir e descer ladeiras empurrando seu carrinho e oferecendo o item, muito querido em dias quentes.

 

Inútil nos de chuva.

 

A recompensa financeira quase não havia. Produto barato. Concorrência acirrada. 

 

Comissão sobre a féria do dia.

 

Parecia mais um zumbi desolado arrastando a própria catatumba.

 

Mas era um vendedor de picolés.

 

Pelo menos não se negou a fazer o gosto dos pais.

 

Vá lá, o efeito psicológico fazia o labor valer a pena.

 

Já não era um desocupado.

 

Era um trabalhador. Suava. Ganhava a vida com seu próprio esforço.

 

Podia já se sentir um cidadão ativo que contribuía para o crescimento econômico da cidade.

 

Honesto, diga-se de passagem.

 

Mas, como dizem, o diabo quando não vem manda sempre o secretário.

 

Naquele dia, o tinhoso com preguiça parece que fizera descer o seu assistente. E bem ali, no

galpão da fábrica de picolés, onde a frota de carrinhos aguardava por seus motoristas afoitos,

foi que se viu diante da tentação.

 

Quem chegava cedo pegava o equipamento mais moderno, leve, pintura novinha, reluzente.

 

Quem não ouvia o galo cantar, ficava com o que sobrava.

 

O dia parecia mesmo daqueles em que o melhor seria ficar na cama.

 

Acordou tarde e pegou as sobras.

 

Conformou-se.

 

Já saia desolado botando mais esforço nos músculos dos braços do que o de costume, quando

avistou o que viria a ser sua salvação.

 

Obra do capiroto, por certo.

 

O pecado se apresentando.

 

A mácula no seu histórico de batalhador ilibado.

 

O saquinho de moedas.

 

Esquecido pelo último vendedor, parecia mesmo um presente.

 

Não deu outra.

 

Vendeu a alma. E poupou os picolés.

 

Logo entendeu que boa parte do seu estoque estava paga.

 

Fez as contas.

 

O montante cobria o valor de mais de uma dezena deles.

 

Seguiu sem pressa, enxugando o calor com sabores variados.

 

Chupou os picolés já vendidos, recostado em sombras de árvores, sentado no meio fio,

conversando nalguma frente de loja.

 

Sentiu-se recompensado pela vida.

 

Voltou do trabalho com um resultado exemplar. Ótima produtividade. Colaborador Nota 10.

 

Fosse hoje, uma foto sua estamparia as paredes da fabriqueta.

 

Funcionário do Mês.

 

 

 

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