Please reload

PROCURE POR TAGS: 

11.03.2020

29.01.2020

28.01.2020

27.01.2020

Please reload

POSTS RECENTES: 

SIGA

  • Facebook Clean Grey
  • Twitter Clean Grey
  • Instagram Clean Grey

EU SOU VOCÊ AMANHÃ

24.03.2017

Não sei quando descobri. Mas sei que não tenho muito poder de abstração. Muitas

coisas são impenetráveis para mim. Meu filtro do mundo são meus olhos. O que vejo é

que me faz capaz de sentir, de entender, de escrever.

 

Sou superficial. Ou seletiva. Ou não me importo. Poucas coisas compõem meu

mundo. E eu as respeito. Não sou boa interlocutora. Não tenho respostas prontas,

boas sacadas, jogos de palavras.

 

Sendo assim, nunca cheguei a compreender o conceito do brincar. Mas o trato como

se o conhecesse a fundo. Acredito nisso e, como dá, tento fazer disso mais do que

teoria, prática.

 

Um deles afirma que “através do brincar a meninada” aprende, experimenta o mundo,

possibilidades, relações sociais, elabora sua autonomia de ação, organiza emoções.

 

Tenho uma filha de seis anos. Sobre isso podia falar muito. E aos poucos falarei. Mas

quero me ater agora ao fato de priorizar a brincadeira no universo dela. E preparar o

terreno para que ela faça o mesmo. Restrinjo o acesso a eletrônicos, me incomodo

quando passa mais tempo do que acho necessário na televisão .

 

Mas ela é filha única. E eu sou mãe única. E moramos unicamente com nós mesmas.

 

E me resta, além dos papeis todos e de lidas diárias inimagináveis, ser criança, ser

sua amiga (com a mesma idade), ser sua companheira do brincar.

 

Sempre acho que uma criança real cumpriria melhor essa demanda. Mas nos nossos

modos cotidianos e contemporâneos, achar uma igual para que desfrutem dos seus

universos não é tarefa tão fácil.

 

Por vezes me canso da missão de voltar à infância. E me nego a ela. E lamento não

ser mais aquela, tão disponível a esse fim.

 

Mesmo assim, admiro a relação que tenho com a filhota no que tange ao que posso

aprender e até mesmo apreender no brincar com ela. E, nesse processo, ouvi-la.

 

Hoje, depois de duas jornadas de trabalho e mais tudo, quando esperei que ela

estivesse cansada o bastante para cumprir seu ritual noturno sem grandes

intercorrências, ela parecia com a energia de anteontem. E eu, surpreendentemente,

com o mesmo grau de paciência e de entrega.

 

Brincamos. Por horas a fio.

 

E então tive a clareza do que quer dizer o conceito de brincar.

 

Minha filha repetiu nosso ritual, nossa rotina, desde a hora em que o despertador toca,

às 6h, até a hora em que dorme, normalmente por volta das 21h.

 

A diferença, ela estava nos postos de liderança. Era a mãe, era a professora. Estava

no comando. Eu, a filha, a aluna, a subordinada.

 

Ela fez o que eu faço. Comida. Gestos. Palavras. Hábitos. Se arrumou. Se maquiou.

 

Me deixou nos lugares em que a deixo, a começar pela escola.

 

E assim pude perceber como ela se sente em todas essas situações. O que a marca.

 

O que pensa e sente. Além de ter a verbalização desses sentimentos, pude eu mesma

vivênciá-los. Além de me ver refletida. E sentir a força que tem cada coisa com jeito de

banal do dia a dia.

 

Falei inglês, alemão, brinquei de Seu Rei Mandou ou Simon Says. Fiz tabuada.

 

Escrevi as primeiras letras em folhas em que eu mesma decorava com bordas para

recebê-las e depois desenhei coisas que começassem com elas.

 

Tomei café, tomei banho, escovei os dentes. Troquei de roupa. Preparei mochila. Ouvi

reprimendas. E procurei imitá-la em comportamentos mais recorrentes, como acordar

chorando por ter que fazê-lo.

 

Ouvi história. Contei história. Pus pijama. Fui posta para dormir. E foi precisamente

nessa hora em que fui tomada por um susto. E uma sensação estranha. De ruptura.

 

Depois de todo um aconchego para preparar meu ritual do sono, minha mãe, na

verdade, minha filha, deu boa noite, beijo, rezou e se despediu.

 

A porta rangeu. Ela saiu. O quarto escureceu. O coração gelou.

 

E eu paralisei. Então é dessa partida súbita que ela reclama, quando eu mesma saio

antes que adormeça. O meu objetivo é render um pouco mais. Se eu fico, adormeço

junto.

 

Mas quando aconteceu comigo, doeu.

 

Então, isso que é se colocar no lugar do outro. Isso que é pesquisa-ação. Isso que é

empatia. Para todas as afirmações uma interrogação no final.

 

Não sei o que é não. Mas agradeço a chance de ter cumprido a décima jornada do dia

de forma tão intensa. E, assim, brincando.

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram Black Round