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CABEÇA NAS NUVENS

17.03.2017

Andava com a cabeça nas nuvens.

 

Era isso que a menina sempre ouvia.

 

Não sabia bem o que significava. Era pequena para entender dessas coisas.

 

Mas até gostava da definição.

 

Como seria isso?

 

Mais colocada no corpo do que a cabeça dela não poderia haver.

 

Não conseguia fazê-la girar 360 graus.

 

De tão limitada.

 

Se olhasse para cima, o que alcançava era bater com a nuca nas costas.

 

Se envergasse, com sorte o queixo tocaria seu colo.

 

Brincadeira boba, aquela.

 

De dizer aquilo.

 

De dizer aquilo a uma menina.

 

De tanto ouvir falar em nuvens, passou a prestar atenção nelas.

 

Se era para estar com a cabeça lá, é onde ficaria de agora em diante.

 

Passou a olhar para o céu.

 

O feito rendeu-lhe alguns tropicões. Umas topadas. Esbarrões.

 

Você não olha por onde anda?

 

Foi o que passou a ouvir.

 

Mas ela olhava cada vez mais.

 

Para as nuvens.

 

Como poderia supor que aquele conjunto de partículas de água muito finas, mantidas em suspensão pelos movimentos verticais do ar que passou a observar poderia ser mais do que um dragão, um cachorro, uma pipoca estourada, um homem rezando, um dinossauro?

 

Tanta coisa que se dissipava nem bem o olhar a encontrava.

 

Não podia acreditar que estava errada.

 

O que via tinha outros nomes, vejam só.

 

Cumulus, congestus, cumulonimbus , stratocumulus , stratus, nimbostratus, altostratus, altocumulus, cirrus, cirrocumulus.

 

Era muita coisa.

 

Ainda havia as expressões idiomáticas.

 

Nuvem de gente.

 

Nuvem de estrelas.

 

Nuvem de tristeza.

 

Descobriu que em Portugal era comum “tomar nuvem por Juno”.

 

Na vida dela era mais simples. Dia ruim, nuvem negra sobre a cabeça.

 

Dia bom, céu de brigadeiro.

 

Sem nuvem.

 

Por que razão as nuvens eram ligadas ao peso de acontecimentos nefastos?

 

Não deixava de olhá-las.

 

Fez delas um oráculo.

 

Um espelho.

 

Deitada no chão, cabeça rente ao corpo, foi que viu.

 

Estavam ali luz e sombra.

 

Bem e mal.

 

Uma luta.

 

Uma batalha.

 

Travada entre dois seres antagônicos – ou iguais – ou metades da mesma matéria.

 

Era briga de cachorro grande.

 

Ou seria dos carneiros do signo de áries?

 

Ou seria dos minotauros do signo de touro?

 

Era tudo uno.

 

Azul.

 

Água – para ela, do signo de peixes.

 

Bateu cabeça.

 

Era ela. Representada ali. Nas nuvens que não conseguia definir pelo nome.

 

Mas enxergava.

 

Nelas:

 

O encontro.

 

De tudo o que há.

 

De todas as antíteses.

 

A completude.

 

Leu Quintana.

 

E foi como se o céu abrisse.

 

“Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...”

 

 Foto: Janine Moraes

 

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