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O PEDIDO

10.03.2017

Pensou que ia morrer.

 

Não esperava outra coisa quando disparou um tiro contra a própria cabeça.

 

Mas quando se deu conta que enxergava e ouvia, apesar de atônito, reconheceu aquelas cenas como da vida terrena e não daquela outra que ninguém sabe se existe porque não voltou para contar.

 

Tinha o rosto desfigurado.

 

Apesar disso, quando socorrido, conseguiu articular a frase responsável por ter sobrevivido.

 

Era um pedido veemente.

 

Por favor, não me deixe morrer.

 

Conseguiu o intento.

 

Estava aí. Quase podendo contar a história – não contava mais e melhor por não conseguir articular as palavras.

 

Pelo orifício que restara onde antes havia uma boca, mal recebia alimentos.

 

A pizza e o bife com que tanto sonhava, então, não passavam mesmo.  

 

Por dez anos se perguntou o que teria sido melhor.

 

Ter ido de primeira.

 

Não ter tentado.

 

Ou não ter implorado por uma existência que o manteria irreconhecível por uma década.

 

À depressão que o levou a atentar contra si, seguiram-se tantas coisas piores.

 

Uma vida que não era.

 

Uma morte que não vinha.

 

A face retalhada.

 

Isso significava também perder a identidade. Não levar uma vida normal. Não ter uma família, como desejava.

 

E, o pior, ouvir perguntas insolentes e receber olhares escandalizados por onde passasse.

 

Por isso não gostava de circular muito. Foi bem acolhido no trabalho que tinha antes daquele fatídico dia. Fora isso, se isolava para caçar ou pescar.

 

Era na solidão que encontrava alento. Era a esmo o seu lugar.

 

De jovem americano de 21 anos, pereceu até aqui como um velho caquético. Sem nariz, sem dentes, sem mandíbula, sem lábios, sem a visão de um olho.

 

Por ironia ou castigo, restou a vida pulsando. Tivesse cortado a veia e não teria sido assim. Mas ela, o contrariando, estava intacta e escolheu levar seu sangue por um percurso que o mantivesse vivo.

 

Devia ter uma razão.

 

Era a tal segunda chance?

 

O que fazer com ela? Como remediar aquele ato de consequências tão danosas?

 

Não esquecia o pedido aos médicos.

 

Feito por ele mesmo.

 

Aquele “por favor” como últimas palavras.

 

Sim, era bom estar vivo. Era isso que desejava quando apertou o gatilho.

 

Com o gesto, queria matar a depressão, a companhia insidiosa que o abraçara então.

 

Não queria se matar.

 

Que bom que entenderam.

 

Que bom que para o desfecho atual fez oito cirurgias e passou mais de quatro meses em recuperação.

 

Tempo de menos se comparado aos últimos anos.

 

Foram 56 horas de procedimento.

 

Manobra difícil, arriscada, rara ainda.

 

Sorte dele que um compatriota, prestes a ser pai, também aos 21 anos, atirara contra si.

 

E conseguido, o que ele mesmo tentara, em vão, anos antes.

 

Tirar a própria vida.

 

E autorizar a doação dos órgãos. Tudo bem.

 

A esposa, ainda chocada, respeitou o desejo.

 

Mas doação de face?

 

Era possível?

 

Soava estranho.

 

Consentiu.

 

Era Lei dos homens.

 

Olho por olho. Dente por dente.

 

 

O grito (1893). Edvar Munch.

 

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