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LIVRO E CASTIGO

05.03.2017

Fosse nos dias atuais o então menino Paulinho seria entupido de remédios.

 

E de diagnósticos.

 

Hoje, sem dúvida, seria TDAH.

 

E tomaria Ritalina.

 

Na época, não passava de um piá mais agitado.

 

Qualquer veneno com fama de salvador seria um exagero. Um excesso. Ainda bem que ele não cresceu por esses tempos.

 

Nos dele, se as traquinagens ocorressem no ambiente escolar, o maior castigo era ser expulso da sala de aula.

 

Não que ele forçasse a barra para fazer os professores chegarem ao limite.

 

Mas quando isso acontecia, o danadinho não achava ruim.

 

Preferia não se juntar a outros alunos errantes que encontrava nos corredores. Nem implorava a proteção dos pais.

 

Em tais ocasiões, a biblioteca bastava. Como alívio e cura.

 

Encantado com tanta possibilidade em forma de papel impresso, sentava-se e esquecia do tempo, fazendo suas consultas.

 

As obras de literatura recebiam a companhia de um dicionário.

 

A criança logo descobriu que podia recorrer a um, para desvendar os textos, muitas vezes inapropriados para sua idade.

 

O grande livro de significados e outras explicações permitia que pudesse passar dos seus limites e adentrar por mares nunca dantes navegados.

 

Como admirava aqueles tomos pesados. Pudesse, andaria sempre com um a tiracolo.

 

A experiência terminou por fincar-se em sua vida à medida em que crescia.

 

Paulo e não mais Paulinho gostava de fazer uso do dicionário.

 

E mesmo quando a obra em papel caiu em desuso e virou moda a consulta online, ele não largou o velho hábito.

 

Não confiava muito em significados virtuais. Na rede, qualquer palavra é peixe. Todas as formas de grafia são aceitas e disseminadas.

 

O papel, não. Inspira credibilidade. Como um senhorzinho das antigas, usando terno, gravata, sapatos finos e chapéu panamá, passando por um grupo de jovens na praça de alimentação do shopping.

 

Tem uma beleza ali. Um diferencial. Uma raridade escancara que não deve ser subestimada.

 

Para um Senhor Paulo, já de cabelos brancos e chegando aos 60 anos, tocar aquelas folhas fininhas, acariciá-las com o dedo que, como uma bússola precisa, tateia a sequência das letras para chegar à palavra desejada, o uso do dicionário evoca a memória dos tempos idos.

 

E uma necessidade de sempre.

 

O mundo pode ter mudado. As formas de comunicação também.

 

Mas as palavras ainda. São.

 

Faladas ou escritas ou veladas. Exigem zelo e cuidado. Não devem ser maculadas.

 

Diante de tudo isso, o profissional Paulo ficou assaranzado quando descobriu que, sob a alegação de falta de uso, o dicionário da sala onde trabalhava fora devolvido ao lugar de origem.

 

Restava o vazio na prateleira.

 

E como ficou entropigaitado depois daquela notícia, tadinho.

 

 

Artus Wolffort - An Old Man with a Book

 

 

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