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A MULHER E O MENINO

11.02.2017

Agora era fácil falar do assunto.

 

Agora que o tempo passou.

 

Mas na época em que aconteceu, foi tempo de sofrimento e silêncio.

 

Tempo de dor. Sem lágrimas – que homem não chora nem por dor, nem por amor.

 

Pelo que a memória ainda guardava, ela era amiga de sua irmã. Era mais velha, portanto.

Ia na casa quase todo dia, a danada.

 

Parece que ia só para provocar, só para açoitar um coração infanto-juvenil que sequer sabia como se portar diante de uma adolescente, imagina de uma mulher. Mulher feita. Adulta. Casada. Com um filho. E ainda por cima que se chamava Aparecida.

 

Quando ela aparecia lá, o adolescente de 14 sentia coisas que ainda não conseguia decifrar.

O coração palpitava. As maçãs do rosto ganhavam tom avermelhado e temperatura mais elevada que o normal. Lá nas partes baixas é que acontecia o maior mistério. Algo mudava de tamanho, de forma, de textura. E se desencaixava do resto do corpo. Dava até para se benzer e esconjurar, não fosse algo tão bom de sentir, afinal.

 

O que seria tudo aquilo? Perguntava-se já que não podia dar voz a tamanhos segredos.

Fez planos de investigação. Perguntaria à mãe. Ou à irmã. Bobagem. O que diriam elas das dúvidas pueris de um moleque que nem deixara as calças curtas?

 

O jeito era ir levando. A experiência forjou em  conversas com meninos mais velhos, leitura de revistas de conteúdo duvidoso encontradas embaixo da cama, audiência a filmes proibidos (às custas de entrar furtivamente no velho cinema do centro da cidade) e a descoberta de que as mãos, levadas às partes baixas, naquela hora em que tudo por ali mudava de figura, fazia acontecer um milagre totalmente novo.

 

Inflou-se de autoconfiança e até aumentou de tamanho. Se sentia mais alto.  Por coincidência, a voz mudou junto. O rosto. Já nem parecia aquele menino que se escondia para captar, pelas frestas da porta, um pouco da voz de Aparecida. E do que tinha a conversar com a irmã dele.

 

Definitivamente, era outro. Tão outro que um dia criou coragem. Se arrumou todo. Um banho daqueles. Inclusive de perfume. Roubado da mãe. Era melhor ter posto uma fragrância masculina – mas isso não lhe ocorrera.

 

Era tão outro que o que sentia já tinha nome. Era amor. Ou paixão. Ou gostar. Não importa.

Estava enamorado. E a palavra soava bem. Enamorado...

 

Com os sapatos de domingo, uma blusa listrada de botão e bermudas escuras, deu um salto à frente de Aparecida e declarou seu amor. Assim, de chofre. Confiante na reciprocidade.  

 

Ela, no entanto, deu de ombros.  Riu gostosa e ruidosamente. Puro escárnio.

 

Se enxerga. Cresce e aparece, menino.

 

Disse. E desapareceu da vida da família.

 

 

 

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