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A CHEGADA DA MOÇA

14.02.2017

A chegada da moça

 

A moça chegou.

 

Vestia uma camiseta branca. Curta. Deixava parte da barriga à mostra. A outra estava coberta pela calça jeans de cintura alta.

 

Nos pés, tênis pretos. Redley.

 

Cabelos presos num coque desajeitado. Sem maquiagem, reclamava das olheiras – se instalaram há uma semana e não davam mostras de querer partir.

 

Nada disso importava. A moça era linda. Sorriso despretensioso e humor na ponta da língua.

Levava duas vantagens na vida: a beleza e a idade.

 

Isso perdoava qualquer falta, qualquer dívida. Isso a colocava alguns passos à frente de qualquer pessoa ou de qualquer obstáculo. Isso fazia com que seus convidados praticamente se curvassem diante dela oferecendo, com deferência, sorrisos, afagos, gentilezas, conversas leves.

 

A moça iluminou a mesa e tudo o que estava perto. Até os pássaros que faziam uma boquinha no final da tarde antes de sumirem silenciosos nas folhagens da goiabeira, pareciam mais famintos, mais barulhentos.

 

A moça estava apaixonada pelo Rio de Janeiro. Pensava em voltar, em morar lá. Mas ninguém acreditava que ela amava mesmo Brasília.

 

Era amor. Mas podia esperar. O carnaval estava aí.

 

E a moça também estava apaixonada pelo carnaval. O carnaval do e no Rio de Janeiro.

 

Suas fantasias já estavam prontas. É que isso era muito importante no Rio de Janeiro. As pessoas levavam a questão a sério. Investiam muita grana.

 

Para economizar sem descuidar do visual, resolveu criar e executar os modelitos com os quais entraria na avenida, nos blocos de rua e onde mais tivesse festa.

 

Descobriu com isso, um outro amor. Fazer fantasias.

 

Estavam lindas. A de sereia, então. Não fez fotos dela ainda. Mas sabia que se fizesse e postasse nas Redes Sociais, com a plaquinha ‘Vende-se’, rapidamente perderia sua criação para uma foliã sem pena de pôr a mão no bolso.

 

Mas não faria isso.

 

Tivesse mais tempo, aí sim, investiria na pronta entrega.

 

Não seria difícil. Já descobrira o poder da sua criatividade, a destreza de suas mãos e o mundo de possibilidades encoberto atrás das portinholas do Saara, onde comprava as matérias-primas.

 

Cara, que loucura. O Saara também tinha virado amor.

 

E aqueles milhares de opções de miudezas e adereços por tão baixo preço?

 

Não tinha ambientalista que condenasse os pequenos grãos brilhantes que a fizesse desistir da purpurina.

 

A moça tinha esse tanto de amor e de alegria.

 

Mas tinha também aquelas olheiras. E elas não estavam lá por acaso.

 

Ela andou chorando. Os amigos deviam ampará-la, avisou. Estava órfã de mãe, que até avisara por sonho que já habitava outro lugar.

 

A música fala que o homem com uma dor é muito mais elegante.

 

Devia ser por isso que aquela moça, mesmo com a alma revirada ao avesso, conseguia ser tão graciosa.

 

 




 

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