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O VENDEDOR E O LIVRO

12.02.2017

O vendedor passou. Nas costas, uma mochila. Nas mãos, uma espécie de alambrado de ferro,um mostruário portátil em que escorria, em fileiras cuidadosamente arrumadas, tudo o que sepodia vender disposto daquela forma.

 

Ofereceu seus produtos, nomeando alguns. Capa de celular. Fone de ouvido. Carregador

portátil.

 

Usava aquele tom de pregoeiro das ladeiras baianas de antigamente, decantadas nas músicas de Caymmi.

 

A mulher, consumidora em potencial, a quem se dirigia, meneou a cabeça com impaciência,indicando que nada daquilo a interessava. A cena se repetiu. Pilha. Bateria. Lanterna.

 

Não queria ser grosseira. Mas gostaria que entendesse que aquele não era o momento certo para fazer negócios.

 

Ela estava em paz. Tinha tudo o que precisava. Estava ao ar livre. Sentindo o vento, olhando as nuvens, tendo a pele amornada pelo sol, que já esquentava. Por isso, até tinha afastado a mesa alguns vezes na tentativa de se desviar dele.

 

Tomava cerveja, comia farofa de ovo com churrasquinho, observava o comportamento dos pombos ao concorrer com as pessoas por alguns bocados que lhes saciassem a fome.

Conversava. Na verdade, escutava, por parte de um amigo que reaparecia depois de um

grande lapso de tempo, a leitura arrebatadora de um texto. Prestava atenção naquela visceral interpretação. Gostava da voz, gostava dos gestos, da defesa aguerrida das palavras.

 

Da terceira vez em que negaria a compra, foi surpreendida pelo que viu. O moço, ele não devia mesmo passar dos vinte e cinco anos, baixinho, rosto arredondado, pele um tanto escura, já não vendia.

 

Já não fazia do alambrado um porta-voz do seu labor, senão uma escora. Estava no chão e

servia agora para amparar o ombro de quem passara a ouvinte atento.

 

Aquela visão a desconsertou. Pelo inusitado da cena. Pela sua própria insensibilidade, agora esfregada na cara pela humildade daquela criatura que trocara negócios por entretenimento, sem convite, sem pudor.

 

Estaria ele entendendo algo? Pegou o texto pela metade. Mas pareceu estar inteirado de tudo, do começo ao fim. Exibia uma expressão de súbito interesse.

 

Para tentar chegar a uma conclusão, ela perguntou: E aí? Gostou da história? Gostei.

E não arredava pé.

 

Ela pediu, então, que contasse uma história dele, já que pareceu gostar do tema. Ah... Tinha muitas. Mas não saiam assim fáceis. Precisava sentar, pensar, tomar uns goles. Aqui – ela ofereceu um copo. Recusou. Estava trabalhando.

 

Ela ficou ainda mais intrigada. Tinha considerado que ele poderia estar querendo fazer parte da mesa. E sua tese acabara de ruir com a negativa. E a justificativa para ela.

Mas aos poucos foi liberando histórias. De pé e sem aditivos alcoólicos, falou da vida. Dos

filhos. Do último trabalho. Vendia DVDs. Foi assim que assistiu a muitos filmes. Gostou mesmo da adaptação da obra de Ariano Suassuna.

 

A citação despertou o amigo leitor do seu transe e o fez engrenar uma contundente narrativa sobre a importância de livros, leitura, filmes e cinema.

 

Parecia um papo até muito rebuscado. Mas o vendedor se colocou à altura. Foi dizendo o que já leu, o que já assistiu, do que gostava. Pediu dicas de outras obras que pudessem impulsionar o seu conhecimento, talvez parco, mas já ativado.

 

Tirou um pedaço de papel da mochila e pediu: anotaí. Mas um nome no papel seria pouco.

 

Ainda empolgado, o amigo dela foi ao carro e trouxe de lá um exemplar de Drummond, em capa de tecido. Chique. Era presente. Dado. Mas queria uma confirmação de leitura. Deixou o número de seu telefone para ser avisado quando isso acontecesse. O moço ficou de ligar. Era pacto.

 

Leia, leia, leia! Você tem filhos? Diga a seus filhos para fazer a mesma coisa. Só isso pode

mudar a vida de vocês!!! Continuava o amigo, com euforia.

 

Já de costas, o quase menino de poucas letras, recomeçava os passos e a labuta de mercador quando avisou: Vou ler.

 

 

 

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