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UM PASSADO FELIZ DE MULHER

18.02.2017

 

Antes daqui não há passado. Ninguém sabe detalhes da vida dela. Não há velha amiga

íntima que tenha convivido com seus pais, que tenha crescido junto, dividido os primeiros

segredos adolescentes, que saiba quem foi a primeira paixão da escola, sequer para dizer

se houve escola.

 

Não se sabe se nasceu na cidade. Ou se veio para cá junto aos pais bem colocados

profissionalmente no governo. Ou se fugiu de abusos por parte do padrasto e pegou

carona na estrada, subiu na boleia de um caminhão caindo aos pedaços. Se veio num

ônibus malcheiroso, varando madrugadas entre choro e vômito alheios.

 

O que se sabe é que, mulher feita, era bonita. Gostosa. Do tipo arrasa quarteirão. Talhada

para dar e sentir prazer. Uma Geni buarqueana, ora bendita, ora maldita. Gozou suas

águas turvas. Recebeu da mesma substância. Foi paga com a mesma moeda.

E como dançou! Porque se fudeu e porque dançou mesmo. Ao som da música chiada

daquele bordel, aos fundos do Conic. Bonito de se olhar, cheio de lascívia.

 

Naquela calcinha sem charme entraram notas, dedos, paus. Mas ela girava. Se contorcia

como bailarina russa. Era para seduzir. Precisava comer, beber, comprar perfume barato,

maquiagem de chumbo. Era necessário se fazer bonita. E se fez.

 

Foi o que pensou o espanhol que enxergou além da carne, a possibilidade de uma alma. A

vida na Espanha era bem melhor do que a noite enfumaçada, suada, fedida. Ela foi.

Continuava bem mulher. Mas não da vida. Resgatada, cumpriu o papel. Como esposa,

deu ao seu homem o que ele mais queria: um filho. Um fruto. Um varão. Era respeitada.

Mas depois da última briga...

 

Podia ser mãe e esposa. Podia até mesmo amar. Mas levar tapa na cara? Grito no

ouvido? Dedo em riste? Isso não.

 

Nem sabe como aconteceu. Chegou na porta da antiga boate. Já não havia porta. Nem

boate. A Beth’s deixara todos os clientes na mão. Vendida para a igreja. Cacete.

Não precisava mesmo. Era outra. Nem poderia ganhar a vida à custa do corpo, do gozo,

das chupadas, nem precisava de muito. De nada. Só da rua. Só um trago. Só o crack. Que

novidade boa, aquela. Deixava torpor, levava falsas verdades.

 

Entregou-se. Mais uma vez. Já não passava de um amontoado de pele enrugada e ossos

descobertos. Deixava antever o que fora, quando olhada mais atentamente. Mas para

evitar ficar desnuda, ficou agressiva. E afável. Batia de punhos cerrados nas costas de

quem lhe negasse um cigarro ou uma moeda. Outro dia, chamava de gatona e soltava

beijinho para as mulheres que ainda eram.

 

De repente, alguém lembrou. Chamava-se Céci. Naqueles tempos, ainda. Hoje, não se

sabe. Antes daqui não há passado. E nem futuro.

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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